O Jogo

Alguns conceitos, proposições, temas, modelos e estilos, entre outras coisas sempre me chamaram bastante atenção. Destacam-se entre as muitas outras coisas que conheço. Quero aqui apresentá-las de forma mais ou menos ordenada.

Sempre gostei de jogos, sobretudo os mais elaborados. Intuitivamente sempre vi a filosofia como uma forma de jogo, assim como as ciências. Fiquei muito feliz e curioso quando soube que o conceito de jogo havia sido trabalhado por alguns pensadores: Huizinga, Wittgenstein e Gadamer. Os jogos envolvem coisas que chamam minha atenção: eles possuem regras, estas são claras, fáceis de aprender e são extensíveis para qualquer situação dentro do jogo, ele possui decisão, chega uma hora que o jogo acaba e temos um resultado. Dadas essas características podemos fazer algumas coisas sobre os jogos: prever resultados com certa segurança, analisar nosso desempenho, buscar erros e corrigi-los, aprimorar nossa habilidade. Os jogos são uma atividade. Envolve prática, observação e treino. Um conceito de jogo que carregue algumas dessas características e outras que os jogos possuem (obviamente nem todo jogo possui todas essas características) me parece ser de enorme potencial. Além disso, tem a teoria dos jogos que tem se mostrado aplicável no estudo da interação humana, podendo nos fornecer um instrumento matemático para a análise do comportamento, mesmo que seja um instrumento rudimentar por hora. Quero estudar essa teoria a fundo, assim como o conceito de jogo nos autores citados.

Por falar em interação humana, esse é um tema que considero ser importante para qualquer área do conhecimento e central para mim. O conceito de jogo é útil para se estudar as relações humanas. Além da teoria dos jogos, outra coisa que relaciona jogo e relações humanas é o psicodrama. Joguei RPG por um bom tempo, assim o psicodrama cai como uma luva para mim. As idéias de Moreno sobre papéis, desempenho de papéis, treinamento de papéis são úteis não só para estudar as relações humanas, mas para melhorar o nosso desempenho nelas. São conceitos relevantes para a construção de um modelo para explicar as relações humanas, que é o que no fundo eu procuro.

Podemos visualizar em imagens aquilo que buscamos, aquilo que planejamos para o futuro, quanto mais distante, mais opaca e confusa será a imagem. Dada minha história de envolvimento com a filosofia até agora, exatos quatro anos, o que espero realizar com ela para um futuro próximo? Estudar a história da filosofia buscando uma maior compreensão de cada filósofo importante e do contexto no qual escreveram é uma tarefa permanente, conseguimos inúmeras idéias assim, conhecemos problemas e projetos filosóficos, vemos a evolução destes, enfim, além de necessária, a história da filosofia é uma fonte de reflexão rica, prenhe de idéias e prazeres. Irei estudá-la até o fim da vida, não como atividade principal, obviamente. Meu interesse mais específico está em temas como: pragmática, filosofia da linguagem, filosofia da ciência e antropologia. Essa é uma lista de termos muitos genéricos e não diz muito, eu poderia refiná-la: comportamento humano, diálogo, métodos em ciências e etc. Mas o que busco com isso? Dito de modo claro: um modelo, o mais matemático possível, para descrever o comportamento humano, mais especificamente a interação humana, capaz de nos capacitar a fazer intervenções eficazes. Mesclo aqui teoria e prática, não quero um guia de sedução geral. Quero entender o comportamento humano também, ver como se configura, o que participa dele e como as coisas interferem nele, como moldamos nosso comportamento, como nossas crenças o afetam, como se estrutura nosso caráter. Assim como existiam várias hermenêuticas e Schleirmacher elaborou uma hermenêutica geral, elevando a hermenêutica ao patamar filosófico, o que procuro é algo assim só que com a retórica. Assim como ele mantém um lado metódico na sua hermenêutica, creio que a retórica deve manter também. A retórica, entendo a sedução e a oratória como parte da retórica, adquiriu um papel importante no último século e permanece atual. As duas revoluções filosóficas do século passado – linguística e pragmática – apontam para a retórica. Afinal ela une tão bem as duas: está entranhada na linguagem e seu lado pragmático é óbvio. O estudo da retórica nos leva ao estudo da interação humana, plagiando Wittgenstein poderia dizer: meus estudos se estenderam da retórica para as relações humanas. A lógica é importante, mas à lógica interessa apenas a dedução válida. Isso é importante para nos policiarmos, mas sobra um mundo inexplorado de proposições aqui. A retórica é fundamental. A imagem que faço disso tudo é mais ou menos a seguinte: segue a filosofia contemporânea com as contribuições de Chomsky (mais especificamente a apropriação que fazem dele para a psicoterapia elaborada por Blander e Grinder), com as de Perelmam (Plebe, Emanuele e Margutti também), com o Psicodrama (e alguma coisa sobre teatro e educação e jogo e educação) e com a teoria dos jogos numa perspectiva filosófica. Acredito que com esses elementos eu consiga elaborar um modelo onde possa juntar insights, teses, intuições sobre a natureza humana. Dito de maneira clara: quero estudar o modo como o diálogo afeta nosso comportamento. Dito assim obviamente parece absurdamente extenso, mas tenho interesse por alguns campos do comportamento humano em especial. Além de que é uma imagem para longo prazo. Meu interesse não é normativo, como a lógica, quero um modelo que seja adequado para pensar o comportamento e que possa orientar intervenções.

Tenho namorado com a idéia de que a retórica, enquanto teoria da argumentação, é um capítulo do estudo da interação humana e que isso coincide com a ética, é o único modo de falar sobre ética. Não vejo muito sentido em estudar a possibilidade da linguagem expressar proposições éticas, nem creio que questões como aborto, aquecimento global, bioética e etc… tenham a ver com filosofia. Ética é construção de si mesmo. Eu diria que a ética deve nos ensinar a ter uma vida racional, mas esse conceito já está contaminado demais. Devemos buscar uma vida madura de verdade, no fundo é isso que querem dizer com vida racional e maturidade não dá ênfase ao dualismo emoção v.s. razão.

Contar histórias sempre foi um dos passatempos preferidos dos seres humanos. Seu principal entretenimento. As histórias estão muito presentes no nosso dia a dia e foram incorporadas em filmes, novelas, seriados, livros, revistas, jornais, músicas, poemas, fofocas e etc. Essas histórias descrevem indivíduos, eventos, grupos, morais, emoções e etc. Poderíamos pensar que depois de tanto tempo e de tantas histórias estaríamos cheios dela, mas não é o caso. Essas histórias podem ser inovadoras e empolgantes, ou repetições de velhas idéias, mas ainda assim suas platéias as adoram. Elas ficam completamente absorvidas, tentando tirar o máximo de informação que puderem. E caso o narrador seja habilidoso, as pessoas irão entender a mensagem que ele quer passar com a história. Mas em sua maioria essas histórias não tem sido interativas; uma pessoa ou um grupo as cria para que outras pessoas as apreciem. Essas platéias exercem pouca influência na forma como a história transcorre ou em como ela deve terminar. Se uma platéia não gosta do fim de um filme, sua única opção é sair. Se ela não gostar da direção tomada por um livro, sua única opção é fechá-lo. Essas histórias tem seu valor e adoramos apreciá-las, mas elas são fechadas. No RPG não é bem assim. Uma vez vi uma propaganda de doação de livros que dizia assim: “Quem conhece muitas histórias escreve melhor a sua.” Creio que tem sentido. A antropologia tem dada pouca ou nenhuma atenção a esse fato.

Vi na filosofia um caminho, encontrei nela coisas que buscava, mas ainda não é o que procuro. Contudo o que procuro está nela, sem dúvida. Cabe a criar, através dela, o que procuro. Preciso estudar a matemática básica, a teoria dos jogos, a teoria dos sistemas, a cibernética e a lógica. Após isso quero uma base legal de física, relatividade e mecânica quântica. Fora isso quero fazer leituras sobre psicologia. Na linha que venho estudando: Watzlawick, psicodrama, análise transacional, Lewin, hipnose e PNL. Isto sem perder o foco filosófico, por que sou um filósofo. O que busco na matemática e na psicologia é por necessidade, por levar a sério a filosofia.

A interação deve possuir uma lógica interna, mesmo que seja muito complicada. Aqui vale lembrar uma passagem de Leibniz:

“Nada acontece no mundo que seja absolutamente irregular, mas nem sequer tal se poderia forjar. Suponhamos, por exemplo, que alguém lance ao acaso muitos pontos sobre o papel, como os que exercem a ridícula arte da geomancia. Digo que é possível encontrar uma linha geométrica cuja noção seja constante e uniforme segundo uma certa regra, de maneira a passar esta linha por todos estes pontos e na mesma ordem em que a mão os marcara. (…) Assim, pode-se dizer que, de qualquer maneira que Deus criasse o mundo, este teria sido sempre regular e dentro de certa ordem geral.”

Uma outra passagem que gosto dele é:

“Não há homens mais inteligentes do que aqueles que são capazes de inventar jogos. É aí que o espírito se manifesta mais livremente. Seria desejável que existisse um curso inteiro de jogos tratados matematicamente.”

A imagem que me persegue desde os 17 anos pelo menos tem se tornado cada vez mais clara. Tive aquela sorte de me deparar com certos livros e certas idéias no tempo certo. Uma coisa é certa: eu não sou um filósofo que pensa o jogo, mas um jogador que faz filosofia. O encontro com o psicodrama foi muito rico, com a teoria dos jogos e as idéias do círculo de Palo Alto também. Logo após veio a PNL, a análise transacional e agora o Jogo das Contas de Vidro de Hesse. O que eu gostaria mesmo é de escrever um único livro onde eu crie um jogo novo, que é apresentado num romance. O livro seria um romance e um manual ao mesmo tempo. O jogo deveria unir vários elementos: um modelo capaz de representar a interação humana, uma prática de elementos da retórica, sedução, psicodrama e RPG. Os elementos estão quase todos ai, falta estudá-los a fundo e conseguir uni-los numa só coisa.

Mede-se um caráter através dos conceitos de vontade, medo, raiva e controle? Podemos tornar estes conceitos mais operacionais?

Estou convencido de que o solipsismo não é um problema filosófico. A filosofia não tem nada interessante para dizer sobre ele. Já a neurociência sim (neurônios espelhos). A PNL parece abordar um campo que pode desenvolver junto com a neurociência. A filosofia deve caminhar nessa direção. Busco uma pragmática da comunicação humana. Faço fronteira com a psicologia e a neurociência. Devo estudar sintaxe e semântica, mas focar a pragmática.

O Jogo das Contas de Vidro que procuro é jogar com o código do comportamento.

Um mestrado em educação? É uma oportunidade para trabalhar empiricamente. Estudar as teorias da aprendizagem. Fazer experiências. Fazer uso das leituras psicológicas. É um caminho. Poderia fazer cálculo e alguma matemática. Poderia estudar Lewin, Watzlawic, teoria dos jogos e teoria dos sistemas aplicados a psicologia. Pensar em experiências com os alunos. Primeiro devo aprofundar meus estudos da PNL. A experiência da descrição vaga da astrologia é interessante. Os testes emocional de Eckman e o livro Consciência Emocional são interessantes. Soube da teoria do drama, uma mistura da teoria dos jogos com emoções. Aquilo que busco está no ar. Posso farejá-lo.

Os filósofos brasileiros, os grandes mesmo, lêem demais. Por isso são tão fieis a interpretação correta e não a solução de problemas. Por isso não criam. Quanto aos estudantes de filosofia, esses não lêem e não criam. Ou seja, nem sequer pensam. A interpretação de um texto filosófico é uma tarefa chata, agora eu sei. Se depois de 4 anos estudando filosofia você não sabe que rumo tomar ou qual passo dar em seguida então deixe a filosofia. Devemos pensar e resolver exercícios mais do que ler. Nada data de sua morte Espinosa tinha 160 livros, isso nos mostra algo. Ler é importante, mas não e tudo. Informação trabalhada é mais fundamental. Criar, é preciso criar. Existem inúmeras teorias, cabe aplicá-las, é isto que está faltando. Aplicá-las também gera descobertas. Essas teorias devem nortear experimentos, esclarecer práticas, propor práticas. Embora haja sinceridade na execução do projeto, ele mesmo beira o lúdico.

C = f(S) que é o mesmo que C = f (P + A). O comportamento é uma função do campo psicológico total, que é a junção do estado atual da pessoa mais o ambiente. O RPG, o ambiente de trabalho, grupo de estudos entre outros fornecem vasto campo de observação da interação humana, dos grupos. Modelar o campo de modo a permitir inferências. Todos intuitivamente prevêem comportamentos. Fazemos amplo uso dessa intuição, nos movemos com base nela. Sem chegar a fazer dela um sistema. Um sistema precisa dar conta de ir além da intuição. É isso que move o teórico. Os feitos em várias áreas mostram que é possível. Em alguns casos o teórico ultrapassou a intuição. Mas a intuição também evolui, dai ser necessário os dois.

Toda comunicação efetiva é hipnose. Como mestre de RPG tive oportunidade de por em prática isso, mesmo sem o saber. Cabe estudar melhor isso. Vejo um grande potencial para meu projeto e para o estudo do RPG.

Desconfiar da gramática e da mitologia impressa na gramática é o início do filosofar. Tolkien dizia que ao criar línguas toda uma mitologia segue como consequência, sendo O senhor dos Anéis essa mitologia. Seu objetivo era linguístico. Nietzsche diz algo muito semelhante. Ambos eram filólogos. Wittgenstein diz a mesma coisa. Nietzsche estava certo? Ainda continuamos a acreditar em Deus porque acreditamos na gramática?

A ética é o estudo da natureza humana. Não prescreve nada.

Do RPG, da PNL, do psicodrama e da filosofia devo extrair o jogo das contas de vidro. Como é esse jogo das contas de vidro? Ainda não sei bem. Envolve obter um domínio grande da interação, de modo a manipulá-la com maestria. Envolve propor-se desafios. É similar à sedução. É jogo no sentido elevado. Fazer de si mesmo o super-homem. Um futebol para intelectuais.

29/12/2009

Do RPG, do livro A Estrutura da Magia e os trabalhos de John Grinder e Richard Blander, do psicodrama e da filosofia devo extrair o meu jogo das contas de vidro. Como é esse jogo das contas de vidro? Ainda não sei bem. Envolve obter um domínio grande da interação, de modo a manipulá-la com maestria. Envolve propor-se desafios. É similar à sedução e à retórica enquanto persuação. É jogo no sentido elevado. Envolve fazer de si mesmo o super-homem, no sentido ético de construção de si mesmo. Um futebol para intelectuais. A trama narrada em forma de diário no livro Diários de um Sedutor de Kierkegaard se aproxima do que busco. No filme Os Suspeitos (The Usual Suspects) temos outro exemplo. No filme O Ilusionista temos outro. Não é exatamente isso, mas se aproxima. Lembra os grupos de libertinos descritos por Crebillon Fils, mas não se resume na sedução. Filosoficamente penso aqui numa estrutura similar à de Wittgenstein: uma vez identificados os jogos, dominados, devemos abandoná-los. Por trás dos jogos reside o sujeito, essa é uma camada a ser atravessada para que haja comunicação efetiva. Não é nada que uma vez ou outra eu e inúmeras pessoas já não tenha feito, até mesmo inconsciente de que o fazia. Explicitar a estrutura por trás, tornar metódico e despropositado, isso é sem fim além de si, ou seja, torná-lo um jogo é o que busco.

Anotações para um trabalho seu sobre o texto estetoscópio:

O grande sedutor é aquele que, através da linguagem, encontra alguém. Ele usa a linguagem de sua vítima. A sedução se dá pelo discurso, pelo conteúdo e pela maneira como as palavras são ditas. O sedutor é autoconfiante, fala de modo claro, tranqüilizante, persuasivo, seguro. Diz aquilo que somente sua vítima seria capaz de dizer. Conta e evoca coisas que somente sua vítima poderia saber. Reconhece traços que ela valoriza, mas que poucos notam. O grande sedutor é sempre paciente, dá tempo a sua vítima para que se prepare que fantasie que se encante. Não mostra nunca o seu desejo. Sabe sempre retirar-se, dar um passo atrás. Ele acompanha o ritmo de sua presa e sobre ele constrói sua estratégia. Sem cobrar nada, suas vítimas se entregam a ele.

Podemos aplicar isso em vários campos, segue dois exemplos:

O homem sedutor é aquele que, embora viril, fala como uma mulher. Diz aquilo que só uma mulher seria capaz de dizer. Fala do corpo feminino com a delicadeza de uma mulher. Fala e evoca sensações que somente uma mulher conhece. Reconhece nela aquilo de que ela sempre se orgulhou, mas que poucos notam. Suas palavras despertam desejos e reflexões, evoca imagens e ele conta com isso. Jogando com essas imagens e reflexões ele faz com que ela se entregue livremente. Ela toma as iniciativas. Ele não lhe pede nada e é aqui que reside seu encanto.

Um discurso sedutor é aquele que fala para nós. Ele expõe em palavras claras sensações e coisas que sempre soubemos. Fala-nos com a intimidade de um amigo. Suas palavras nos provocam insights e enchem nossas mentes de imagens. Parece nos conhecer o íntimo, descreve coisas que apenas nós sabemos. Molda, através de suas palavras, sentimentos, imagens e reflexões. Ciente disso traça suas artimanhas e nos seduz.

Sentimento: o encantamento das imagens conceituais

“Uma imagem nos mantinha presos” diz Wittgenstein. Por causa de uma imagem ele construiu uma das maiores filosofias do século passado. Não estamos nós também presos a imagens? Alguma vez não seguiu um caminho, teórico ou não, acreditando em uma imagem vaga? Ou quando chamado a abandonar essa imagem não recusaste? Não sente certo conforto ou certa segurança que emana dessa imagem? Ao nos chamar para não pensar por imagens, mas em conceitos claros e distintos para não sermos mais vítimas de imagens, não apenas caímos em outra imagem? Uma imagem de sociedade perfeita sem classes dividiu o mundo. Uma imagem de Deus e de paraíso por anos seduz o ocidente. Uma imagem de vida racional esclarecida há séculos seduz a filosofia. Uma imagem para ser eficaz em seu encantamento não pode ser atingida, para que seja incessantemente buscada. Ao buscarmos um sentido para a vida não queremos uma imagem no horizonte? Não se sente preso a imagens?

O que encontrei até hoje mais próximo do que procuro? A análise Transacional de Eric Berne. Acho tudo o que ele escreve de uma ingenuidade tremenda, mas de um potencial enorme. Ele fala de estados do ego – Pai, Adulto, Criança, obviamente derivados do Ego, Superego e Id de Freud, que por sua vez segundo li parece ter sido tirado das três almas de Platão. Ele fala em papéis, jogos, passatempos, scripts… e usa esquemas para mapear as relações humanas, coisas que desde os 16 pelo menos anos eu venho buscando. Cheguei a escrever um pequeno texto sobre os jogos das pessoas com 16 anos, que infelizmente se perdeu. Era ingênuo e apaixonado, excessivamente crítico, mas um mapa do caminho que eu viria a seguir. Hoje penso que talvez dê para usar algo como as representações da psicologia topológica de Lewin, misturado com teoria dos jogos e Análise Transacional. Onde Lewin representa a pessoa, usaríamos os esquemas de Eric Berne, para trabalhar as compensações usaríamos a teoria dos jogos. Talvez dê para incluir conceitos da teoria de sistemas também. Estudar a fundo essas teorias, tentar expandi-las e unificá-las é o que planejo para o futuro. Caso não dê para fazer isso, resta construir uma nova teoria capaz de incorporar os avanços obtidos por essas teorias e meus próprios insights sobre a interação humana. Fazer experimentos também será necessário. No que você difere desses autores e teorias? O espírito que move é mais semelhante ao que movia Moreno e o seu psicodrama. As pessoas querem o salvador. Partilho um pouco do misticismo dele. Da vivência pregada por ele. Quero uma teoria rigorosa voltada para a ação. Embora seja seríssima, meu objetivo é lúdico.  Embora haja sinceridade na execução do projeto, ele mesmo beira o lúdico. Pois quero fazer de tudo isso um jogo. Inspirado pelo O Jogo Das Contas de Vidro de Hesse, embora de natureza bem diferente. Apresentá-lo num romance/manual/tratado. No fundo mesmo tenho ambições científicas, mas me contentaria caso encontrasse o que procuro em algum lugar.

Em imagem eu sempre vejo as relações humanas dentro de um rede altamente complexa, mas passível se der assimilada. O metamodelo de Grinder e Blander é parecido: ele orienta o analista para que este aprofunde o sentido das sentenças emitidas pelo paciente. Penso que o conjunto de ações de uma pessoa em um determinado contexto permite manifestar certos projetos, certos papéis que ela joga, busca jogar e papéis que ela tenta impor aos outros. Se assumirmos que isso existe e ocorre em um determinado caso poderemos encontrar estratégias de ação que permitem conectar algumas de suas ações, isso é, dar sentido às suas ações. Pensando assim cada pessoa possui um nível de performance em geral e em determinados papéis. Essa performance é mais ou menos inconsciente, mais ou menos justificada. Não caio no erro de cometer um interpreticídio aqui. Acredito que muitas ações nossas são soltas, sem objetivo visível, mas existe sim as ações estratégicas. Nosso comportamento em boa parte não é consciente. Eckman mostra que nossas emoções não possuem um gatilho consciente, até por esta ser posterior à elas. É possível tornar nosso comportamento mais estratégico, mais consciente. Isso elevado ao nível de jogo, é o que quero. Eu me interessei pela filosofia quando me contaram da idéia de Nietzsche de que toda relação é uma relação de poder. Novamente nada muito distante do que faço todos os dias. Estou atento às ações das pessoas, no modo como dizem e no que dizem, em seu comportamento não-verbal, em que se baseiam suas crenças e como elas se formam, no efeito da minha performance sobre os outros… tenho tido ambientes bem propícios para isso. Se tenho jogado num sentido parecido com o que busco? As vezes. Trata-se de coisas pequenas como: iniciar uma conversa, distrair a pessoa, de modo que ela altere um comportamento padrão, como, por exemplo, que ela fique além da hora do trabalho sendo que sempre sai quando termina seu expediente. Coisas mais elaboradas como seduzir uma pessoa sem dar nenhuma mostra objetiva de interesse nela, deixando-a com a sensação de que estou interessado nela, de modo a reagir a isso, mas sem nada objetivo que mostre meu interesse, apenas alimentando suas especulações, sobretudo de modo não-verbal. Todas brincadeiras inocentes, pois tenho preocupações éticas. Sempre tive a inteligência interpessoal bem desenvolvida, talvez essa seja a origem desse projeto. O meta-modelo é um método para ampliá-la e ensiná-la. Meu pragmatismo é tal que uma maneira de ensiná-la que seja eficaz pode ser a teoria que busco. Uno as categorias de método, prática e teoria de certo modo. É também um modo de buscar meios para expressar algo que quero dizer. Todas essas idéias apresentadas aqui foram coisas ruminadas por mim desde os 16 anos e que só agora consigo expressar, mesmo que de forma desordenada e especulativa ainda. Foi ao ler O Jogo das Contas de Vidro de Hesse que me dei conta de que o que eu buscava era um jogo. Era tão óbvio, de certa maneira, mas eu não havia percebido.

O lado filosófico ou ético/existencial entra fica mais claro quando generalizamos esses jogos de que falo.

Por que um romance? Gostei de testar novos gêneros literários, você me despertou para isso com seu trabalho no 1 semestre onde exigia um mesmo texto em 3 gêneros literários. A filosofia que lida basicamente com textos tem feito pouco uso dos recursos literários. Outra coisa que pretendo fazer em breve é um livro-jogo sobre filosofia. Daqueles que após a descrição de uma situação lhe deixa escolhas e cada uma delas te encaminha para parágrafos númerados tipo: se abre a porta vá para 23, se resolve abrir o livro vá para 68 e o parágrafo que você escolhe novamente lhe dirige para outros e assim por diante. Aqui o livro torna-se bem mais interativo. Penso até que esse envio para parágrafos numerados pode simular ou acompanhar o movimento da argumentação. Esse tipo de livro está em voga novamente. No início do curso de filosofia eu estava mais literário do que agora, mas sempre quis escrever um romance. Tenho um esquema de projeto já para ele.

A tese de que a lógica seja a essência da linguagem exige que partindo da proposição sejamos capazes de extrair todas as outras funções da linguagem. Wittgenstein torna a lógica anterior à linguagem. Assim a linguagem deve brotar da lógica. Da proposição na verdade, já que para ele a proposição é a função mais básica da linguagem, mas a proposição é um modelo lógico, logo podemos dizer que ele extrai a linguagem da lógica. O problema é que a lógica é uma base pequena para recriar toda a linguagem. A proposição serve para salvar a ciência empírica, que é o que no fundo ele deseja. Fica fora, no entanto os inúmeros outros usos da linguagem.

Por exemplo: Qual o sentido das seguintes proposições:

João dava aulas de filosofia na academia. (expresso ironicamente)

João dava aulas de filosofia na academia (expresso com saudosismo)

João dava aulas de filosofia na academia (como informação)

Acredito que Wittgenstein entendia estas sentenças mais ou menos da seguinte maneira. Da proposição Pedro dorme, eu posso criar um protótipo “x dorme”, onde x será substituído por um argumento qualquer, por exemplo “João dorme”, “Pedro dorme” e etc. Posso usar a letra D para representar o predicado lógico dormir. Assim, Dx significa x dorme. Dx determina uma classe de proposições agora. Pedro dorme determina apenas que Pedro dorme, já x dorme pode virar João dorme, Maria dorme e etc. Eu poderia ir além de escrever Fx onde F seria uma função de um predicado qualquer e obteríamos assim um protótipo que determina uma classe de proposições ainda maior que Dx. Acontece que dado isso eu poderia construir a seguinte proposição: a cidade dorme. Pedro dorme possui conteúdo descritivo, os nomes significam objetos, logo Pedro dorme possui sentido, já a proposição “a cidade dorme” não possui conteúdo descritivo. Por que não? Literalmente dormir é uma função do organismo vivo, pessoas e animais dormem, cidades não. Mas entendemos o que a proposição “a cidade dorme” diz. Wittgenstein afirma que proposições assim são contrasensos se entendidas literalmente. No entanto elas podem ser utilizadas de maneira metafórica. Com “a cidade dorme” eu posso querer dizer que as pessoas estão dormindo e os estabelecimentos estão fechados ou que já é noite e não poderemos resolver nada hoje e etc. A metáfora só terá sentido se ela se ela estiver apoiada em uma proposição que possui sentido da maneira exigida por ele.

Assim, se “João dava aulas de filosofia na academia” estiver representando a proposição “Dar aulas de filosofia não é um emprego decente, pois filosofia é inútil”, então a proposição “João dava aulas de filosofia na academia” terá sentido, que será a proposição que ela está substituindo. A explicação de Wittgenstein até funciona, mas é artificial em alguns casos.

A pergunta central que deveríamos fazer é a seguinte: a formalização e a proposição conseguem captar todos os sentidos de uma sentença? A resposta é: Não, não consegue. Vejamos um exemplo:

O Rodrigo vai escrever um e-mail e vai dormir.

P – O Rodrigo vai escrever um e-mail

Q – O Rodrigo vai dormir

P & Q = O Rodrigo vai escrever um e-mail e o Rodrigo vai dormir.

P & Q é logicamente equivalente a Q & P.

Mas em minha proposição original eu poderia estar enfatizando a ordem cronológica com que realizaria as tarefas: primeiro escrevo o e-mail e depois vou dormir. Isso se perde na formalização.

A disjunção (P v Q) não capta o sentido mais usual do uso dela na linguagem cotidiana: ou vamos ver o filme ou eu vou embora. Aqui meu ou é exclusivo, ou vemos o filme ou eu vou embora. A disjunção possui a seguinte tabela de verdade:

P v Q
V V V
V V F
F V V
F F F

Só que na proposição enunciada não há como os dois lados serem verdadeiros, pois ou um se realiza ou o outro. Para este caso, no entanto, existe a disjunção exclusiva cuja tabela é:

P Vex Q
V F V
V V F
F V V
F F F

Acredito que a tentativa de Wittgenstein foi muito precoce. A lógica moderna acabara de nascer em 1918. Mesmo hoje a formalização não consegue captar todos os sentidos de uma sentença. Não acredito que algum diria serão capazes na verdade, pois assim como os métodos de formalização avançam a linguagem também avança. No entanto esta é uma tarefa, criar métodos para formalizar um número cada vez maior de sentenças e sentidos. Foi isso que Richard Montague fez, por exemplo. É um caminho.

Algo semelhante ao que estou dizendo pode ser visto indiretamente numa crítica de Julio Cabrera à tentativa de Cirne-Lima de formalizar a Lógica de Hegel:

IHU On-Line – O senhor disse, durante o Colóquio Depois de Hegel, que a formalização de Cirne-Lima não é satisfatória e ele mesmo concordou. Em que o senhor baseia essa posição?

Julio Cabrera – Critiquei na verdade a atitude de Cirne-Lima de querer justificar o pensamento dialético hegeliano diante da lógica moderna. Defendi a idéia de que o sistema de Hegel se ergue sobre seus próprios pés sem precisar dessa legitimação diante dos lógicos. Então, Hegel é autor de uma lógica reflexiva. A minha crítica fundamental foi de que a crítica que Cirne-Lima apresenta no livro Depois de Hegel é uma espécie de taquigrafia interna feita com a linguagem da lógica moderna do pensamento de Hegel, mas não constitui uma formalização do próprio pensamento de Hegel. Fiquei muito feliz que o próprio Cirne-Lima, durante o debate,

reconheceu que as formalizações lógico-formais eram fracas no sentido de que não refletiam o pensamento hegeliano. Porém, isso não era uma crítica contra o trabalho dele ou contra a atitude de querer justificar o pensamento de Hegel diante dos lógicos.

http://www.ihuonline.unisinos.br/uploads/edicoes/1213054489.296pdf.pdf

As entrevistas dessa revista constituem um raro debate entre filósofos brasileiros. Margutti argumenta num sentido semelhante:

IHU On-Line – Como o meio acadêmico hegeliano vê as empreitadas de Cirne-Lima, como a da formalização da Ciência da Lógica?

Paulo Roberto Margutti Pinto – Os hegelianos vêem a lógica formal como um mero capítulo de um movimento maior, a lógica dialética. A primeira é estática e não dá conta de explicar os processos históricos, que se desenvolvem no tempo. A segunda é dinâmica e possui a capacidade de explicar os processos históricos. A lógica formal fica paralisada quando depara com uma contradição. A lógica dialética avança justamente quando depara com uma contradição. Nessa perspectiva qualquer tentativa de formalização da dialética é vista pelos hegelianos como uma diminuição da mesma.

É como se estivéssemos utilizando a parte — lógica formal — para explicar o todo — lógica dialética — ou o inferior para explicar o superior. O meio acadêmico hegeliano não vê com simpatia a iniciativa de Cirne-Lima. Para piorar, o meio acadêmico de tendência analítica, ao qual pertenço e que enfatiza a lógica formal em detrimento da dialética, também não vê com bons olhos essa iniciativa, pois considera-a desnecessária e destinada ao fracasso.

Isso coloca as idéias de Cirne-Lima numa situação em que se encontram

expostas ao fogo inimigo em dois flancos mas, ao mesmo tempo, lhe confere

uma posição única no debate filosófico.

Wittgenstein parece tentar um projeto semelhante. Mas a linguagem é muito mais rica de sentidos do que a lógica formal. Assim como a dialética hegeliana é mais rica que a lógica formal. Querer formalizar a linguagem é um projeto válido, mas querer fazer da lógica o fundamento da linguagem exigiria que a formalização capturasse todos os sentidos de uma sentença, o que não ocorre.

O sentido é determinado porque os nomes designam um objeto específico dentro do modelo. Assim, para entender bem o que é o sentido devemos entender os objetos, mas ele não diz o que é um objeto. Veja essa passagem:

“Norman Malcolm relata que certa vez ele perguntou a Wittgenstein se, quando ele escreveu o Tractatus, ele tinha alguma vez se decidido sobre se alguma coisa era um exemplo de um ‘objeto simples’. Sua resposta foi que naquele tempo sua opinião era que ele era um lógico, e que não era de sua competência, como lógico, tentar decidir se essa ou aquela coisa era simples ou complexa, sendo essa uma questão puramente empírica! Era claro que ele considerava sua primeira opinião como absurda”.

Como saber se o nome Deus na proposição “Deus existe” significa um objeto ou não um objeto? A resposta seria que aquilo que a ciência diz que existe pode ser tomado como um objeto, creio eu. Pois a ciência empírica é o único discurso dotado de sentido para ele.

Algumas sentenças, imagens e conceitos são mais ricos de sentidos do que outros. Minha imagem dos três tipos de jogadores parece ser mais rica de sentidos do que muitos outros conjuntos de sentenças. A alegoria da caverna de Platão é riquíssima de sentidos. Como pode ele equiparar as sentenças num mesmo nível? Como ele explica o fato de que algumas imagens são mais ricas de sentidos que outras? Este é um problema que surge do fato de Wittgenstein não aceitar graus. Ou a forma gramatical coincide com a forma lógica ou a forma gramatical mascara a forma lógica, que uma notação adequada deve revelar. A linguagem, assim como está, está em perfeita ordem. Por traz de uma sentença pode haver sua forma lógica e isso é tudo.

Esta idéia vai totalmente contra a minha idéia de “aprofundamento”, apresentada no texto Sobre a Origem da Filsoofia que é essencialmente gradual.

Uma moça que trabalhava comigo me disse várias vezes: “As pessoas são cruéis”. Para o Witgenstein do Tractatus: isso seria formalizado como: para todo x, se x é uma pessoa, então x é cruel. Pessoa determina uma classe de indivíduos, cruel um predicado, que poderia ser estendido em: se x age pensando apenas no seu bem estar e x não hesita em ferir outras pessoas e x sente prazer ao fazer isso então x é cruel. Poderíamos construir uma tabela de verdadee e etc… Há outros modos de encarar essa sentença.

A gramática transformacional de Chomsky chamaria essa sentença de uma estrutura superficial onde ocorre uma generalização. “As pessoas” não tem índice referencial. Que pessoas especificamente? Podemos pensar aqui que dada algumas experiências particulares a pessoa extraiu essa conclusão, tornando-a um modelo pelo qual pensa o mundo (ou fala dele, já que nem sempre crença e discurso estão conectados). Essa estrutura superficial parte de uma estrutura profunda que a pergunta pelo índice referencial busca esclarecer. Fazendo isso poderíamos encontrar casos específicos de quem são as pessoas cruéis. Mesmo o predicado cruel não fica claro. O que é ser cruel? Chegar do trabalho em casa e não ser cumprimentada? Apanhar do namorado? Ser vítima de palavrões? Compreendemos a palavra, sabemos o que ela pode significar, mas não sabemos exatamente o que ela significa no modelo da pessoa. Nossa atenção pode estar em buscar a estrutura profunda da qual deriva a estrutura superficial que nos é apresentada e não na estrutura sintática da sentença. Assim, através de perguntas, resgatamos a estrutura profunda, que no caso, poderia ser: “Meus dois últimos namorados, Marcos e Pedro, me deixaram e isso me abalou psicologicamente, eles foram cruéis”. Ao alcançar essa estrutura profunda poderíamos fazer a pessoa voltar à experiência original e enriquecer o modelo da estrutura profunda. As pessoas fazem modelos dos fatos ou de suas experiências, esses modelos podem ser mais ou menos fiéis à experiência. O modelo não é a experiência. Se acreditarmos que agimos de acordo com nossos modelos, então um modelo simples pode ignorar distinções que levariam a outros comportamentos, isso e, um modelo mais complexo permite uma gama maior de comportamentos. A tese de que agimos segundo informações, segundo modelos pode ser confirmado empiricamente, li sobre um estudo onde voluntários foram colocados em estado de transe pela hipnose e sugestionados a ver um painel preto e branco como se fosse colorido, seus cérebros eram escaneados durante o processo e as áreas responsáveis pela cores foi realmente ativada, como se ela realmente enxergasse cores. Isso mostra que construímos modelos e filtramos a realidade, ele não nos é dada diretamente, isso é, entre mim e o mundo há sempre um modelo. Um modelo simplório não permite tantas ações quanto um modelo mais detalhado. Um modelo simples como que apresentamos pode inclusive fazer a pessoa pensar que o mundo está contra ela, que todas as pessoas são más e que ela está encurralada.

Falamos aqui em modelo, estrutura superficial, estrutura profunda… esses conceitos lembram conceitos de Wittgenstein, mas seu uso e a perspectiva pela qual vê a linguagem é totalmente diferente. Não interessa aqui encontrar o modelo correto, não se fala em modelos corretos na verdade, pois se está interessado na gama de opções que um modelo permite e nas suas consequências. O interesse está não apenas nos modelos adequados e funcionais, mas em modelos limitados também. Gregory Bateson na introdução do livro A Estrutura da Magia – Um Livro sobre Linguagem e Psicoterapia, de onde extraí essas idéias diz o seguinte:

É um raro prazer escrever uma introdução para este livro, porque John Grinder e Richard Bandler fizeram algo semelhante ao que meus colegas e eu tentamos há quinze anos.

A tarefa era fácil de definir: criar um ponto de partida de um base teórica apropriada para a descrição da interação humana.

A dificuldade reside na palavra “apropriada” e no fato de que o que deveria ser descrito incluía não somente a sequência de eventos da comunicação bem sucedida, mas também os padrões de desentendimento e o patogênico.

As ciências do comportamento, e especialmente a psiquiatria, sempre evitaram a teoria, e é fácil fazer uma lista das várias maneiras pelas quais a teoria poderia ser evitada: os historiadores (e alguns antropólogos) escolheram a impossível tarefa de fazer não teoria, mas extrair mais dados daquilo que era conhecido – uma tarefa para detetives e tribunais . Os sociólogos podaram as complexas variações do fato conhecido a uma tal simplicidade que o que restou desta tosquia foi quase nada. Os economistas acreditavam na preferência transitiva. Os psicólogos aceitavam todo o tipo de entidades explanatórias internas (ego, ansiedade, agressão, instinto, conflito etc.) de certa forma uma reminiscência da psicologia medieval.

Os psiquiatras embrenharam-se em todos esses métodos de explicação; andaram à busca de narrativas da infância para explicar o presente, extraindo novos dados daquilo que era conhecido. Tentaram criar exemplos estatísticos de morbidez. Mergulharam em entidades míticas e internas, ids e arquétipos. Acima de tudo, tomaram emprestado os conceitos da física e mecânica (energia, tensão, e coisas semelhantes) para criar um cientificismo.

Mas houve alguns pontos de partida dignos de se trabalhar: os “tipos lógicos” de Russell e Whitehead, a “Teoria dos Jogos” de Von Neumann, as noções de forma comparável (chamadas “homologia” pelos biólogos), os conceitos de “níveis” em linguística, a análise dos silogismos “esquizofrênicos” de Von Domarus, a noção de descontinuidade da genética e a noção relacionada de informação binária. Padrão e redundância estavam começando a ser definidos. E, acima de tudo, havia a idéia de homeostase e autocorreção da cibernética.

Dessas peças espalhadas surgiu uma classificação hierárquica de ordens de mensagens e (por conseguinte) de ordens de aprendizado, os primórdios de uma teoria de “esquizofrenia” e com ela uma tentativa, muito prematura, de classificar os modos pelos quais as pessoas e os animais codificam suas mensagens (digital, analógico, icônico, cinésico, verbal etc.)

Talvez nossa maior desvantagem naquela época tenha sido a dificuldade que os profissionais aparentavam experimentar quando tentavam compreender o que estávamos fazendo. Alguns até mesmo tentaram contar “duplos sentidos” em conversações gravadas. Guardo como um tesouro em meus arquivos uma carta de um orgão subvencionador dizendo que meu trabalho deveria ser mais clínico, mais experimental, e, acima de tudo, mais quantitativo.

Grinder e Bandler enfrentaram os mesmos problemas que nós, naquela época, e esta séria é o resultado. Eles dispõe de elementos que não tivemos (ou não víamos como usá-los. Tiveram êxito em transformar a linguística numa base para a teoria e simultaneamente num instrumento para a terapia. Isto lhes dá um duplo controle dos fenômenos psiquiátricos, e fizeram algo que, como vejo hoje em dia, fomos tolos em deixar escapar.

Já sabíamos que a maior parte das premissas da psicologia individual era inútil, e sabíamos que devíamos classificar os modos de comunicação. mas nunca nos ocorreu indagar sobre os efeitos dos modos sobre as relações interpessoais. Neste primeiro volume, Grinder e Bandler tiveram êxito em tornar explícita a sintaxe de como as pessoas evitam a modificação e, por conseguinte como auxiliá-las na mudança. Aqui se concentram na comunicação verbal. No segundo volume, desenvolvem um modelo geral da comunicação e modificação, envolvendo os outros modos de comunicação que os seres humanos usam para representar e comunicar suas experiências. O que acontece quando as mensagens em código digital são lançadas a uma pessoa capaz de raciocinar dentro deste contexto? Ou quando representações visuais são oferecidas a um paciente auditivo?

Não vimos que estes diversos modos de codificação ( visual, auditivo etc.) são tão distantes, tão diferentes um do outro mesmo na representação neurofisiológica, que material algum em código nenhum pode jamais ser do mesmo tipo lógico que qualquer material em qualquer outro código.

esta descoberta parece óbvia quando o argumento parte da linguística, como no primeiro volume da presente série, ao invés de partir de contraste cultural e psicose, como fizemos.

Mas, realmente, muito do que era tão difícil dizer em 1955 é extraordinariamente mais fácil em 1975.

Que isto seja ouvido.”

Nessa pequena introdução Bateson mostra muito do que busco: um modelo para descrever a interação humana, fazer da linguística (ou a linguagem em geral) a base para a teoria, descrever não só a comunicação que obtem sucesso, mas a comunicação falha também (no patológico não tenho muito interesse), ter na teoria – no metamodelo – um instrumento para orientar a comunicação, classificar os modos de comunicação e ver seus efeitos sobre as relações interpessoais.

A idéia do metamodelo é atraente: “utilizamos a linguagem para representar nossa experiência – este é um processo particular. Utilizamos, então, a linguagem para representar nossa representação de nossa experiência – um processo social. Essa “representação representada” resulta em um “modelo de um modelo”, estruturado e reconhecido como tal – daí a denominação metamodelo.”

A linguagem não traduz a realidade, é um mapa dela, ou, como o Sardi prefere dizer, uma dada linguagem é um óculos que colocamos para enxergar o mundo. Há limitações conhecidas da nossa capacidade de representação: algumas de caráter fisiológico, outras individuais e outras sociais. Quanto à comunicação de nossas representações, os autores identificam uma série de aspectos que podemos observar e em como estes aspectos orientam intervenções. Partindo do pressuposto de que ao enunciar uma frase, uma estrutura superficial esta é extraída de uma estrutura profunda que é a representação de uma experiência, o modelo dela, os autores identificam alguns fenômenos linguísticos de interesse para a psicologia: eliminações que é quando uma parte da experiência ou da estrutura profunda não está presente na estrutura superficial apresentada, distorção – nominalizações que é quando um processo dinâmico da experiência é tornado um substântivo, generalizações, como o exemplo que fornecemos, boa estruturação semântica e etc. Cada fenômeno recebe distinções e casos especiais são apresentados. No livro estes fenômenos são explicados com bastantes detalhes e inúmeros exemplos, a fonte teórica aqui é a gramática transformacional de Chomsky. Como o livro é voltado para a psicoterapia todos os exemplos são dessa área, mas é aplicável em outros contextos.

As sentenças:

Pedro ama Maria.

Maria é amada por Pedro.

Reconhecemos que embora as estruturas superficiais sejam diferentes, a mensagem comunicada, ou estruturas profundas, dessas frases são as mesmas. Em Wittgenstein diríamos que o pensamento comunicado ou o conteúdo das proposições é o mesmo, embora as sentenças sejam diferentes.

É fácil de ver que a linguagem tem inúmeros usos além do representacional. Veja este exemplo:

Oi.

Oi. Tudo bem?

Tudo sim. E você?

Tudo jóia. Está sumida.

Pois é, trabalhando muito. Na correria. E você, que tem feito?

Nada demais. Estudando, trabalhando.

Que bom te ver. Estou atrasada agora. Tenho que ir.

Eu também. Vê se aparece.

Apareço sim. Beijo.

Beijo. Tchau

Tchau.

O que estas sentenças querem dizer? Uma coisa me parece certa: o objetivo não é realmente saber o que se está perguntando. Ocorre uma troca de informação, mas isso é secundário, pois o foco é uma interação social. Pode ser um meio de manter as aparências (ainda somos grandes amigas) ou pode ser formalidade, por exemplo (Já que te vi, fingimos ainda ser íntimas, já que ignorar a pessoa seria socialmente mais caro). A interação é mais importante que o próprio conteúdo, faz-se uso de sentenças com conteúdo, mas não com vistas ao conteúdo, mas à própria ação de interagir, ao efeito pragmático da emissão de uma sentença. Uma conversa simples dessas já parece invalidar as pretensões de Wittgenstein I. O que ocorre no Tractatus é que os efeitos pragmáticos do discurso são deixados de fora, pois o foco está na sintaxe e na semântica. Uma mesma estrutura sintática pode servir a diversos fins pragmáticos, como mostra o exemplo seguinte já citado:

João dava aulas de filosofia na academia (dito ironicamente, com saudosismo ou como informação). Dependendo do modo como é dito, significa uma coisa diferente. Aqui fica claro que apenas o conteúdo é insuficiente para explicar a linguagem, Wittgenstein vai tentar resolver esse problema através da idéia dos jogos de linguagens.

O que tenho feito aqui? Formalizações limitadas ainda, poderia se dizer. É verdade, mas desde que não sejamos ávidos por extrair conclusões gerais sobre a linguagem a partir delas e tenhamos bem claro seus usos, faremos uso saudável dela. Isso é, o que tenho aqui é mais um modo de proceder do que teses filosóficas mesmo. O Tractatus tem muito a ensinar sobre isso. Wittgenstein inovou pouco em termos de conteúdo, o conteúdo de sua filosofia é extraído de Kant, Schopenhauer e Weininger (que é um kantiano), o restante vem de Russel e Frege. Suas inovações são sobre o uso que se faz com esse conteúdo, sobre o que estamos fazendo quando fazemos filosofia, sobre o que significa, do ponto de vista da linguagem, fazer filosofia. Através dessas considerações ele vai constatar que alguns problemas filosóficos são um erro de linguagem.

Penso que formalizar, isso é, criar um modelo operacional, regras gerais para modelar e trabalhar com estes modelos é o cerne do estudo. Nas ciências humanas não há muito disso infelizmente. Venho do RPG, minha idéia de sistema é bem diferente do que se chama de um sistema filosófico, muito diferente do sistema de Wittgenstein, por exemplo. Um sistema de RPG é constituído por regras de modelagem, isso é, regras de criação de personagens e regras de interação, isso é regras de transações entre os personagens como combate e perícias sociais ou transações entre os personagens e o ambiente, perícias físicas, testes de atributos, força da natureza e etc. Tendo as regras de modelar, os modelos e as regras de interação passamos a pensar dentro do modelo, isso é restringido por suas regras. Um RPG é um jogo de contar histórias com o apoio de um sistema. Histórias podem ser jogadas sem um sistema, obviamente, mas tipicamente elas são pensadas dentro de um sistema. Quando digo que procuro um sistema para descrever a interação humana estou dizendo que busco modos de formalizar as relações interpessoais, construindo modelos de situações e regras de interação entre os modelos. Aqui o sistema deve ser capaz de: se não prever ações, orientar ações. Em que sentido digo orientar ações? Permitir intervenções eficazes durante uma interação. Eficácia dado nosso objetivo nessa interação. Segue alguns exemplos seguindo o metamodelo do livro A Estrutura da Magia. Estes serão extraídos dos comentários do Sardi à minha monografia:

Frase minha: O Tractatus nos parece ser um exemplo perfeito do que a tradição sempre entendeu como filosofia, embora seja um texto de grande originalidade.

Comentário dele: “E o que a tradição sempre compreendeu por “filosofia” na sua interpretação?”

Aqui pede-se pelo índice referencial de “o que a tradição sempre entendeu por filosofia”. Um exemplo bem mais simples, mas que faz uso do mesmo princípio é o seguinte: As pessoas não dão a mínima para mim. Que pessoas mais especificamente? Com uma pergunta pelo índice referencial queremos explicitar aspectos da estrutura profunda que não estão presentes na estrutura superficial. Outro exemplo seria: Filosofia é inútil. E o que você entende por filosofia mais especificamente?

Frase minha: Existe, no entanto o inexprimível.

Comentário dele: “Qual o significado de inexprimível?”

Pergunta pelo índice referencial também, dessa vez mais diretamente.

Frase minha: Isso é possível porque aparentemente todas as outras funções da linguagem podem ser explicadas pela noção de proposição.

Comentário dele: “Você concorda que: “Todas” as funções da linguagem podem ser explicadas pela noção de proposição?”

Este é um caso de generalização. Ao destacar com as aspas o Todas, o comentário sugere um desafio à generalização. Pega algo que está sendo dito, mas não de maneira explicita e desafia o interlocutor, perguntando se ele concorda com isso enfatizando um ponto específico. Um exemplo mais simples deste mesmo princípio é o seguinte: Ninguém presta atenção ao que eu digo. Você está querendo dizer que ninguém jamais presta atenção a você?  O que fizemos aqui é enfatizar a generalização feita pelo quantificador universal da frase (ninguém), incluindo outros quantificadores universais na estrutura superficial original (jamais). Esta forma de desafio pergunta se há quaisquer exceções a suas generalizações. A estratégia é fazer a pessoa reconhecer a generalização e começar a atribuir índices referenciais.

Frase minha: Exemplos de fatos são: A circunstância de o atual imperador do Brasil ser mulherengo e corrupto. A circunstância de haver 50 livros em uma estante. A circunstância de João morar em uma determinada cidade.

Comentário dele: “Existem fatos “subjetivos”?”

Tem-se um tipo de generalização induzida. Os exemplos citados dão a entender que todos os casos são do tipo dos exemplos especificados. A pergunta visa esclarecer se a generalização está sendo feita ou não. Exemplo mais simples: Autores que gosto são Nora Roberts, Danielle Steel, Barbara Delinsky… Você gosta de algum autor que não escreve romances românticos?

Os exemplos citados são casos do que entendo por orientar ações, comentários, nesse caso. O metamodelo é constituído por um conjunto de fenômenos lingüísticos: eliminação, generalização, nominalizações e boa-estruturação semântica. Todos estes fenômenos são descritos usando a gramática transformacional de Chomsky. Com estes fenômenos podemos verificar se a estrutura superficial dita por uma pessoa é adequada ou não, se ela apresenta adequadamente a estrutura profunda ou não. Se seu modelo está empobrecido ou não e em como podemos enriquecê-lo, apontar caminhos, buscar esclarecimentos e etc.

Outro aspecto interessante de uso da linguagem é o jogo. Estamos reunidos em uma mesa jogando RPG, um dos jogadores se levante e diz:

Solte-a seu idiota ou eu mato você!

Num outro nível, essa mesma frase revela o seguinte: essas frases não representam aquilo que elas representariam numa situação normal, eu não quero matar você e nem te considero idiota e eu sei que você não está segurando alguém que eu queria libertar, isso é um jogo.

Sem aceitar uma metalinguagem, a simples mensagem “Isso é um jogo” já se torna difícil de ser compreendida. Pior ainda pelo fato de que os animais conseguem fazer essa distinção, uma vez que brincam/jogam. Um cão avança sobre o outro para atacá-lo, morde sua orelha, não para machucá-lo, o outro então se ergue e começa a correr atrás do outro. Quem vê a cena sabe que ambos brincam. O cão sabe que aquelas ações não representam o que elas normalmente representariam. Podemos até mesmo pensar que isso está implícito no primeiro ato de mordida do primeiro cão. No sistema do Tractatus uma sentença como “Essa proposição não representa o que normalmente ela representaria” é um contrasenso. Podemos tentar resolver este problema apelando para que a forma lógica de uma sentença não é necessariamente igual a sua forma gramatical. Vide a definição de metáfora no início. O problema de trabalhar com uma estrutura fixa como Wittgenstein pretende é que múltiplos sentidos ou usos não podem ser explicados apenas com uma estrutura sintática.

Uma teoria da linguagem precisaria dar conta de explicar, por exemplo, o seguinte uso complexo da linguagem:

Eu saco minha espada em investida e ataco ele no tronco. Morre bastardo!! (dito por um sujeito sentado em uma mesa sem espada, sem intenção de atacar alguém fisicamente.

Rola seu ataca, diz outro jogador. Ele rola, fazem-se cálculos. Você o acerta no tronco, vê o sangue brotar de sua armadura enquanto ele grita.

No mundo do jogo a proposição “Ele atacou o inimigo com sua espada provocando um corte em seu tronco” é verdadeira. Dizer que essas proposições são falsas porque os nomes que as constituem não designam nada não resolve nada, pois no contexto onde elas são ditas, elas são verdadeiras. Wittgenstein reconhece esses problemas em sua teoria, pois isso elabora o conceito de jogos de linguagem, entre outros nas Investigações Filosóficas. Mas estes conceitos não têm a precisão, nem a operacionalidade dos conceitos do Tractatus. Também é de difícil compreensão a noção de filosofia não teórica que ele apresenta nas Investigações Filosóficas. É possível explicar de modo claro o que ele pretende com o Tractatus, apesar de nem tudo, o mesmo já não acontece nas Investigações. Meu interesse na linguagem está relacionado ao uso pragmático dela nas interações, problemas mais psicológicos do que filosóficos.

Sabendo disso pode-se perguntar: qual a utilidade de uma monografia sobre o Tractatus como a que fiz?

Ela nos fornece uma estrutura rígida, mas operacional e precisa para servir de comparação. Agora tenho bem claro o que dizem estar superado ou melhor as limitações do modelo anterior. O professor Stein dizia: se quiser começar a fazer filosofia de verdade, adentre um paradigma, pois só assim vai conhecer problemas filosóficos conectados, formando um sistema e em como ele explica certos aspectos da realidade. Não se faz filosofia sem estar vinculado a um paradigma, sem um centro, a idéia de uma filosofia sem centro, sem núcleo, é contrária a própria idéia de filosofia, tal como a tradição sempre a entendeu. Conhecendo o Tractatus a fundo, e a filosofia de Wittgenstein de um modo geral, tenho um ponto de referência sólido, conheço profundamente um sistema de pensamento, vejo como diversas teorias se articulam dentro dele para formar um sistema, conheço claramente o que é um projeto filosófico, o que são problemas filosóficos e o que a filosofia pretende.

O que sei até agora?

1 – Não há um Eu, um núcleo duro que possamos buscar, o eu é o que emana dos inúmeros papéis que desempenhamos. Não há essa essência, o Eu deve ser um conceito operacional.

2 – Devemos ter cuidado ao falar de caráter ou personalidade, pois esses conceitos namoram com a idéia de um eu fixo ou que possa unificar e dar sentido (servir para explicar) às ações de uma pessoa. Nosso comportamento varia de acordo com o contexto. Penso que podemos trabalhar com a noção de que agimos de modo adequado, com a ação que nos parece adequada à situação, com o contexto no qual estamos situados. Mudando-se o contexto, mudam-se nossas ações, mesmo que as mudanças sejam pequenas. Ações movidas por princípios ou moral são exceções e não a regra geral.

3 – Os conceitos papel, desempenho de papel e treinamento de papel parecem ser um solo firme de onde posso partir.

4 – Embora envolva compreensão das nossas ações e comportamentos, não de trata de apenas compreender ou de prever comportamentos. Não busco um uma equação que se alimentada com dados de uma pessoa e colocada em um determinado contexto vá, como resultado, sugerir o comportamento adotado por ela ou o mais provável de ser adotado. Não é disso que se trata. A compreensão é usada em função de ampliar a percepção, o que, por si só, já permite ao menos visualizar uma gama maior de respostas/comportamentos possíveis.

5 – Não desejo apenas receitas de comportamentos.

6 – Se penso numa noção de verdade pós-taskiana e pós-pragmatista, porque não devo assumi-la? Os pragmatistas parecem ir na direção em que penso, mas recuam no meio do caminho. Minha noção de verdade é um misto de adequação pragmática funcional já realizada.

7 – Teoria, método e didática se fundem em uma só coisa. No sentido de: se eu sei fazer e posso ensinar, isto é toda a teoria de que preciso. Conhecer retórica é ser um retórico, conhecer literatura é ser um escritor… comentar e criticar são funções para jornalistas e apresentadores, que são, no fundo, apenas pessoas com informação. Uma teoria no ramo que proponho é uma espécie de treinamento. Falta treinamento para os filósofos e para as ciências humanas em geral.

8 – A crítica deve ser moderada. Nada resiste a uma crítica radical. Parte do trabalho da crítica é ajudar a situar um pensamento, no sentido de mapear sua direção, não apenas contestar, embora isso se faça necessário as vezes. Fundamental é ser capaz de se colocar no lugar do outro, é ser capaz de expor tão bem quanto ou melhor o ponto de vista do outro do que ele mesmo e só então questionar, se isto realmente for necessário.

9 – Uma teoria da argumentação, uma epistemologia ou uma lógica que exerçam uma função policial, no sentido de fiscalizar e impedir pensamentos que ultrapassem suas redes é o erro dos analíticos e pseudológicos. Se o verdadeiro espírito científico exigisse não acreditar sem exame prévio ou sem provas suficientes, pouco se produziria de novo e pouco teríamos sobre o que falar. O sucesso científico está mais em estar no caminho certo e fazer as perguntas certas. Estar em sintonia com o espírito do tempo. A justificação é um processo posterior e nem tão importante quanto supõem.

10 – A estrutura pergunta-resposta precisa ser ultrapassada. A vida não é um enigma a ser desvendado. A vida é para ser vivida. Através da idéia de teoria como uma espécie de treinamento penso poder tornar secundário essa estrutura pergunta-resposta. Pouco acredito em respostas. Não busco respostas. Me apoio em teses e faço perguntas para que possa ver, mas isso não é o principal.

A idéia que me orienta é mais ou menos a seguinte: os filósofos contemporâneos tem se interessado pela retórica e pela argumentação em geral, isso dentro do paradigma linguístico-pragmático vigente. “De acordo com Thomas Conley, muitos filósofos contemporâneos perderam a confiança na capacidade da filosofia formal em resolver problemas de decisão e ação. Em virtude disso, estes filósofos retornaram aos estudos de Retórica. Neste retorno, que constitui uma das características marcantes do século XX, destacam-se os trabalhos de McKeon, Toulmin, Perelman e Habermas (Conley 1994: 285).” Embora eu creia que a direção esteja correta, que devemos retornar à retórica, vejo a retórica como uma parte do estudo da interação humana. O estudo da argumentação, que é uma forma de interação, é um capítulo do estudo da interação humana como um todo, objeto de estudo da psicologia social. Os filósofos ainda estudam a retórica apenas em seu aspecto textual praticamente, ignorando os aspectos sociais. Também não me agrada de todo a maneira como esses autores estudam a retórica, elaborando teorias sobre a argumentação e etc… Isto deve ser superado, o objetivo deve ser aprender os meios para que possamos usá-los. Resumindo: estudar retórica é ser um bom retórico, estudar sedução é ser sedutor e etc. Mas se trata de simplesmente isso? Um método de treinamento? Uma espécie de Programação Neurolinguística filosófica? Será que ainda não me dei conta de todo que existe uma grande diferença entre, por exemplo, falar uma língua e ser capaz de dizer explicitamente e listar as regras que se observam enquanto se fala tal língua? É obvio que devemos catalogar os esquemas argumentativos, tal como fez Chaïm Perelman em seu livro Tratado da Argumentação, claro que devemos ter boas noções de lógica formal e uma noção geral sobre o que se entendeu por retórica na Grécia e em Roma, mas este é um trabalho raso, que nos fornece mais clareza para poder elaborar o verdadeiro trabalho: ser um bom retórico. O filósofo PRECISA ser um bom retórico. Para que ser um bom retórico? Para:

1) ajudar a nos lançar ao patamar social desejado, isso é, juntar dinheiro se é o que se deseja, ter mulheres se é o que se deseja e etc… Hoje muitos apontam para a capacidade de comunicação como um fator senão determinante, muito importante para o sucesso. Vários livros são publicados sobre o assunto e a PNL (Programação Neurolinguística) está em voga.

2) ampliar nossa percepção e leque de ações (vemos o mundo através de modelos, esses modelos podem ser mais ou menos elaborados, modelos empobrecidos limitam nossas ações e podem vir a se tornar fontes de sofrimento, modelos mais elaborados fornecem mais opções de comportamento).

3) ter o pensamento minucioso de tal modo a poder desfrutar em cada filósofo, em cada teoria, em cada momento da vida, em cada conversa e em cada pessoa uma qualidade especial. Sem essa capacidade, perde-se muito dos textos, dos debates e das pessoas, logo da vida.

4) nos lançar ao patamar verdadeiramente filosófico, servir como uma espécie de filtro que evitaria que ficássemos em jogos já catalogados, em discussões acadêmicas e etc… assim como em muitas interações fica-se apenas em jogos sociais e não se transcende isso para que haja um verdadeiro encontro entre duas pessoas, superar isso nos lança a outro patamar da relação, o mesmo com a filosofia, com o fazer filosofia… Por jogos já catalogados entendo uma interação já cristalizada, onde cada movimento já é conhecido de antemão, assim como o desfecho e mesmo assim insistimos em realizá-los. Tal como o seguinte jogo:

Pessoa 1: Oi.
Pessoa 2: Oi. Tudo bem?
Pessoa 1: Tudo sim. E você?
Pessoa 2: Tudo jóia. Está sumida.
Pessoa 1: Pois é, trabalhando muito. Na correria. E você, que tem feito?
Pessoa 2: Nada demais. Estudando, trabalhando.
Pessoa 1: Que bom te ver. Estou atrasada agora. Tenho que ir.
Pessoa 2: Eu também. Vê se aparece.
Pessoa 1: Apareço sim. Beijo.
Pessoa 2: Beijo. Tchau
Pessoa 1: Tchau.

Após isso entraríamos no nível onde a filosofia pode ser iniciada. Meu modo de ver as ciências humanas (uma parte das ciências humanas na verdade) é que não se trata de estudar, trata-se de desenvolver certas capacidades. Vou me estender aqui para que isso fique claro: quando me deparei pela primeira vez com o argumento do gênio maligno, a primeira coisa que pensei foi: pra que colocar tudo em cheque? Por que duvidar de tudo se o objetivo é ir além do que já se tem? Do que já se conhece e é inevitável? Do argumento do gênio maligno extraio as seguintes conclusões:

1) a linguagem pode nos pregar peças, premissas aparentemente verdadeiras levam a conclusões inaceitáveis. Algumas coisas absurdas podem ser provadas com premissas verdadeiras, tudo pode ser provado, ou ao menos, parecer bem razoável.

2) Podemos identificar/criar problemas que não fazem sentido ou que não levam a investigações interessantes, que esses problemas podem ser abandonados sem problemas…

3) Que estudar problemas isolados assim não nos levará a nada de valor… Perguntar: o que pesa mais na hora de tomar uma decisão: a razão ou as emoções? (pergunta que hoje é da neurociência), a linguagem pode exprimir proposições éticas adequadamente? (pergunta da ética hoje), É o conhecimento crença verdadeira justificada? (epistemologia), O problema mente/corpo é um problema oriundo da metafísica platônica? (filosofia da mente)… partir de um problema assim buscando uma resposta, embora possa até gerar um trabalho interessante, não pode ser a estrutura fundamental da filosofia.

4) Quando encontramos uma aporia devemos lembrar que a ação ultrapassa o pensamento. Que os limites da linguagem não são os limites do mundo.

5) Que uma noção de verdade pragmático/utilitária se faz necessária. Que até devemos lutar contra os impulsos natos em nossa maneira de pensar, fugir do dogmatismo, por exemplo, mas que devemos estar cientes de que esses impulsos tem sua razão de ser.

Eu não tenho problemas… até tenho perguntas, mas elas surgem no âmbito de um projeto, mas digo que o projeto é filosófico, não as perguntas. Não é estudar, é realizar… O que é realizar nesse contexto? Seria essa uma pergunta filosófica? Certamente que não. Realizar é simplesmente realizar. Em vez de elaborar um estudo sobre retórica, entre num debate do dia-a-dia, ou mesmo acadêmico, e defenda um ponto de vista contrário ao que verdadeiramente acredita (defenda Deus, sendo ateu, por exemplo). Ah então seu conceito de realizar envolve um certo tipo de engajamento, ele já tem peculiaridades… diz-me um observador atento. Sim, é verdade, eu diria, mas isto não é de todo importante… eu poderia troca realizar por engajar… o conceito aqui não é importante. Não faria sentido escrever algo como o conceito de argumentação em Rodrigo de Oliveira. Com o estudo e prática da retórica (capítulo da interação humana) nos alçamos à filosofia (a filosofia nasce dentro da sofística)… aqui não vou reduzir a filosofia ao que vou dizer, mas apontar um ramo (pouco explorado) que me atrai bastante… o exemplo que dei sobre engajar-se em um debate do dia-a-dia ou acadêmico e defender uma opinião que não acreditamos é um bom exemplo do que chamarei de jogo. O Diário de um Sedutor de Kierkegaard é caso exemplar do que chamo de jogo, ou melhor, do jogo que proponho. Outro exemplo muito bom é o filme Nove Rainhas. A realização desses jogos é bem mais que um passatempo e, estou cada vez mais convencido, é mais que um possível método para alguns ramos das ciências humanas, uma vez que todas repousam sobre a interação humana. É ou deve ser objetivo das ciências humanas (alguns ramos) mostrar até onde podemos ir, até onde podemos chegar. Há muito estudo, faltam tecnologias para as ciências humanas. Esses jogos que proponho são um início do grande jogo, que é meu conjunto de tecnologias para as ciências humanas.

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