Carta aos Vivos

Título: Carta aos Vivos

Anexo

A seguinte carta foi encontrada em um pequeno apartamento de duas peças localizado num bairro pobre da capital, porém, apesar do conteúdo, não havia corpo algum junto à carta, mas na mesma noite um corpo foi encontrado no córrego que corta a cidade. Abaixo fazemos um resumo das informações que conseguimos sobre o indivíduo. Geovan Dorneles era um jovem professor de filosofia. De acordo com nossos registros, estava na casa dos vinte e tinha boa aparência.

Chegou a dar aulas em grandes e renomados colégios da capital, mas devido a suas idéias radicais, fora demitido mais de uma vez. Atualmente estava desempregado. Ao que parece, decidiu recorrer ao crime para conseguir dinheiro pra divulgar suas idéias. Muitos textos foram encontrados no pequeno  apartamento e ao que parece são de autoria do indivíduo.

Mata e rouba, mas acaba enlouquecendo. Em sua carta suicídio, tenta mostrar que não fez nada demais, que o que fazia estava nele, assim como em todos nós. Que o que fazia era seguir suas convicções mais profundas, mas que fora demasiado fraco para suportá-las.

Não tendo mais nada a acrescentar e nem dúvidas sobre o autor do crime, damos o caso por encerrado.

Segue a tal carta, conforme solicitado.

Carta aos vivos

Geovan Dornelles

22/11/2005

Tudo ia mal e eu precisava de dinheiro para crescer, tornar-me grande e ser lembrado pelos séculos. Passava fome e vivia na sujeira, mas nada, nada era como ver os olhos nojentos deles a me desprezar. Eu, melhor que muitos deles, desprezado. Se pudesse matá-los eu o faria! A princípio, achei que não podia e estava certo.

O medo de não ser reconhecido e o desejo de vingança me levou a tudo. E quando eu já lutava para sobreviver, o outro, era exatamente o outro. Por que não usá-los? Por que vê-los sempre como fim, se no fundo pensamos apenas em nós mesmos? Quando estamos em perigo, fazemos o necessário, e o outro se torna um simples obstáculo. “Somos todos iguais” eis a maior mentira do homem. A idéia de usar o outro não parece tão assustadora se se pode sair impune. De fato, se pudéssemos realizar nossos desejos mais profundos sem sermos punidos aí se revelaria o monstro que no fundo todos somos.

Vivi marcado pela dúvida. Deus existe? Eis a questão de minha vida. Sabia que a levaria para o túmulo, mas no fim, foi ela quem me levou. Sim, me levou…

O homem é um grande canalha! Agora mesmo, eu, um assassino, enquanto escrevo sobre o meu crime, acham que esquecerei os detalhes literários ou que não reescreverei a carta para corrigir erros? Enganam-se.

O desejo de ser lembrado, mesmo que como assassino, ainda arde em meu peito. Mas não é com o intuito de lhes comprar que escrevo. Pois sou culpado. Mesmo que não fizesse o que fiz, sou culpado. Mas vamos ao “crime”.

Era noite, ele andava pelas ruas. Pelos trajes, um casaco sujo e uma calça jeans surrada, era facilmente tomado por mendigo. O dia e a hora foram escolhidos precisamente. Ele caminhava em direção ao pequeno convento, localizado no fim da Rua Otávio Santos, ao lado da Igreja de Santo Antônio. O convento era quase isolado da cidade, de modo que as casas mais próximas ficavam a uns cem metros. A rua estava deserta e o silêncio era mortal, quebrado vez ou outra por um carro ou moto distante. Segurança quase não havia. O prédio era cercado por um muro com um grande portão de grades na frente.

Pulou facilmente o muro e logo estava em frente à porta principal. Uma grande porta dupla de madeira. As luzes estavam todas apagadas e tudo estava silencioso. Era tarde e com certeza todos dormiam. Além, era início das férias de verão e as moças estavam em sua maioria na casa de seus familiares.

A porta dianteira era pesada, por isso contornou o prédio e foi até os fundos, onde uma pequena porta também de madeira, mas sem fechadura dava acesso ao prédio. Esse era grande; contava com uns vinte quartos, cozinha, cantina, lavanderia e um grande salão.

Quando, antes, pensava nesse momento, tremia todo e o coração disparava, mas agora que estava aqui, estava calmo, uma frieza incomum se apossara dele, calculava cada passo com precisão e o raciocínio estava claro como nunca. Encostou-se na porta lentamente e tentou forçá-la. O tranco provocou um baque surdo. Parecia que não iria abrir, mas na terceira vez a porta cedeu.

Ficou quieto por um bom tempo para saber se alguém havia ouvido. Quando se apercebeu de sua calma, o coração disparou. Por um instante quis correr e desistir de tudo, mas se conteve. Entrou. A porta era fechada por dentro, por uma ripa grossa de madeira que atravessava a porta, presa em dois ganchos no portal da porta. Depois que se acostumou com o escuro, pôs-se a andar pelo aposento, com cautela. Um simples tropeção e colocaria tudo a perder. Suava muito e os joelhos tremiam. Queria sentar e se acalmar, mas ao mesmo tempo queria sair dali o mais rápido possível.

Sentou-se num canto e tentou se acalmar.

Os pensamentos lhe corriam rápido, pensava em mil coisas sem se fixar em nenhuma delas, súbito um destes pensamentos lhe chamou a atenção. Apesar do risco, do desespero e do medo de ser pego, sentia-se livre e vivo como nunca. Era algo novo, diferente de tudo que já sentira antes. Havia fugido da existência vazia de outrora, agora as coisas aconteciam. Estava quase em êxtase.

Ficou sentado por alguns minutos, súbito, ouviu passos. Pôs-se de pé às pressas e se escondeu em um canto, encolhido. Alguém entrou no aposento em direção ao interruptor. Por um instante esse lhe pareceu um evento inesperado, mas ele havia calculado tudo. Foi tudo muito rápido.

Quando percebeu, o punhal já estava em suas mãos e antes que a pessoa acendesse a luz, a lâmina cortou o ar e adentrou no pescoço dela. Uma, duas, não três, mas sete vezes. Segurou-a para que não fizesse barulho ao cair. A coitada nem chegou a ver seu agressor e morreu na mesma hora. Engasgada com o próprio sangue não pôde nem gritar. Tudo como planejara.

Deitou-a no chão e verificou se estava mesmo morta.

Olhando-a bem de perto a reconheceu, era Catarina, a velha que dirigia o convento. Esboçou um leve sorriso.

Pensava que esses inesperados acontecessem apenas em filmes ou romances. E aquilo tudo lhe parecia um grande romance. No fim, acabou satisfazendo o último desejo da velha, matou-lhe a sede com o próprio sangue, pensou. Pelo visto estava na cozinha, e tateando cuidadosamente os móveis verificou que realmente estava.

De repente se deu conta de que estava calmo, havia matado e estava calmo. Quando se está com medo, o melhor é fazer uma loucura, assim se espanta todo o medo de uma vez, pensou. Livrando-se desses pensamentos, voltou sua atenção para o trabalho. Trabalho? Será que pensava mesmo em viver disso? Por um momento lhe pareceu que sim e teve nojo de si mesmo. De qualquer forma, precisava encontrar o quarto da velha.

Um convento? Por que um convento? Devem se perguntar.

Tudo começou, quando numa manhã, caminhando pelas ruas, vi Catarina saindo de um banco no centro da cidade. Carregava uma bolsa, olhava desconfiada para os lados e parecia com pressa. Logo tomou um táxi e foi pra casa. O fato se repetia todo dia dez. Mas o dinheiro de uma velha para dirigir um convento deveria ser grande coisa? A velha, não só dirigia o convento como tomava conta das finanças da Igreja também. E houve, poucos dias antes do meu feito, a festa de Santo Antônio que quase coincidia com o pagamento da velha. Na festa como sempre houve leilões de donativos, tendas e todos esses apetrechos de costume.

Suspeitei que eles lucrassem bem. E de fato a velha ganhava bem, pois o fruto de meu feito me rendeu quase quinze mil. Talvez ela juntasse dinheiro afinal.

O que desencadeou tudo foi o fato de que ela não depositou o dinheiro. Fato que verifiquei pessoalmente ficando horas em frente ao banco. Ela guardava o dinheiroem casa. Entãocomecei a agir. No começo me pareceu uma idéia absurda, mas conforme ia desenvolvendo-a ela se tornava cada vez mais brilhante, mais genial e esmagadora, não resisti. Um convento, pra que serve um convento? Perguntei-me. A idéia me parecia perfeita. As perdas seriam restituídas pela igreja, haveria gastos com segurança, algumas moças deixariam o convento. Mas com o tempo iriam esquecer o ocorrido. Eu esconderia o dinheiro até que esquecessem. Depois me mudaria de cidade e iniciaria meus planos. Seria perfeito…

Achar o quarto foi fácil, logo notou que apenas um estava aberto. O quarto era pequeno, mesmo no escuro ele notava. Começou a busca lenta e cuidadosamente. Olhou gavetas, malas e todo o roupeiro e por mais absurdo que possa parecer, o dinheiro estava em uma pasta embaixo do colchão.

Colocou a pasta embaixo da camisa e fechou o casaco. Virou-se pra sair e deu de cara com uma jovem que, pelas vestes brancas, se destacava no escuro.

Ela acabara de entrar para ver o que havia com Catarina e deu de cara com ele. O susto foi tamanho que nem esboçou reação.

Ele, apavorado pelo susto começou a correr, mas logo parou. A conclusão era óbvia. Viu-se olhando para ela. Pegue o punhal seu idiota, pensou. Quando o sacou a moça pensou em gritar, mas ele avançou e tapou-lhe a boca. Assustada ela derruba um abajur que estava em cima de uma pequena escrivaninha ao lado da cama. O barulho do abajur contra o chão a ele pareceu o estrondo de um trovão. Ainda a segurava e tentava prensá-la contra a parede, mas ela caiu em cima da cama, e ele, sobre ela.

Frente a frente com ela, viu que era jovem e bonita, podia se dizer. Sentiu os seios dela roçando-lhe os braços. O corpo quente…

Perdido nesses pensamentos nem viu quando ela pegou o abajur e lhe bateu contra o rosto. Mas ele, de sangue quente, quase nada sentiu. Ela vendo que ele não tentava matá-la, logo compreendeu tudo e desesperada começou a se debater, livrando-se dele.

Correu para a porta, mas esta se fechou antes dela passar, e chocando-se com a porta causou outro estrondo. Ele já rezava para que não houvesse mais ninguém ali.

Vendo-a na camisola e observando-lhe as curvas, teve vontade de agarrá-la e de possuí-la. Mas a razão dizia para matá-la logo. Por um instante pensou nas teorias filosóficas que discutiam, o que pesava mais na hora de tomar decisões, os sentimentos ou a razão? Abandonou esses pensamentos. Pois precisava agir. E agora.

Jogou-a na cama e pôs-se em cima dela, imobilizando-a.

A respiração ofegante e o movimento do seu busto apenas lhe aumentavam o desejo vil de possuí-la.

Estava em êxtase.

O lugar era afastado, o quarto estava fechado e pelo desespero dela, ele sabia que não havia mais ninguém ali. Por isso ela nem se dera ao trabalho de gritar, ninguém iria ouvi-la.

Por que não? Sim… Por que não? Dizia ele para si mesmo. Mas estava indeciso e acabou deixando-a escapar mais uma vez. Ela agarrava objetos próximos e arremessava-os contra ele, mas não sabia o que fazia, tamanho era o seu desespero. Às vistas estavam turvas, sentia medo e tudo que fazia era por instinto.

__ Decida-se seu idiota! Gritou ele para si mesmo, amedrontando-a ainda mais. E foi enquanto o punhal descia em direção a ela seus rostos se encontraram.

Aquele olhar quase o deteve, havia uma força ali que o fez estremecer dos pés a cabeça. Havia gratidão naquele olhar. Havia, mas havia mais… Havia algo de divino ali? De onde vinha àquela força?

Por pouco não soltou o punhal e sai correndo.

O golpe foi certeiro, atingindo-a um pouco abaixo do pescoço. O sangue jorrou violentamente. Ela, mesmo morta, mantinha aquele olhar, que o fez sair correndo dali o mais rápido que pode. Se já não estivesse com o dinheiro o teria deixado.

Mas aquele olhar o acompanharia para sempre.

Enquanto fugia suava muito, estava febril e o corpo tremia muito. Nem percebeu se verificou a rua antes de pular o muro, mas por sorte estava vazia. Caminhou às pressas para casa todo sujo de sangue. Quando chegou em casa, já delirava. Passou a noite toda em claro, assim como muitas outras. E quando finalmente dormia, logo um pesadelo o acordava.

Com o tempo a coisa só piorou. Quanto ao dinheiro, fez uma fogueira e queimou nota por nota, para evitar que aquelas pessoas nas notas o olhassem daquela forma. Trancou-se em casa para nunca mais sair. Estava louco e sabia disso. Queria se matar, mas antes, juntou as forças que lhe restavam para escrever uma carta.

E se Deus existir? E se Deus existir?

Essa pergunta o levou a morte. O que havia naquele olhar? Repetia para si mesmo com os lábios tremendo.

Havia ali algo de divino?

Mas se pensam que me arrependo do que fiz enganam-se, porque eu não fiz nada. Matei dois insetos insignificantes. Sim… Dois insetos insignificantes para o todo. Talvez eu seja herói. Mas sou culpado.

Culpado por fracassar, culpado por não resistir àquele olhar…

O que havia lá? Deus existe?

Culpado por ser fraco.

A racionalidade mais genial está no mal, está nos detalhes de um assassinato, na estratégia de um crime perfeito, o conhecimento, para superar a si mesmo deve contemplar o mal.

Pobre de ti, ó terra, quando os homens se aperceberem disso.

Mas que tudo isso importa? Talvez no fundo o homem seja mesmo uma paixão inútil.

Nada me resta, só a loucura. Mas se pensam que me mato enganam-se, pois a muito já estou morto.

E SE DEUS EXISTIR?!

Se Deus existir, então eu serei o mais miserável dos homens.

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