Esboço

Parte 1

Não saber o que se é, não ter domínio sobre si, não poder confiar em si mesmo. Eis o que era Jean naqueles dias. Em sua mente uma imagem esmaecida do que ele já fora. Ah como ele tinha orgulho de si mesmo. É estranho pensar em como chegou aquele ponto, pois que era um homem inteligente. É certo que presenciou cada passo em direção ao abismo. Talvez Jean tenha entrado em um jogo perigoso e exigiu demais de si mesmo. O que costuma acontecer com homens talentosos… Sentado na poltrona sem vontade mesmo de levantar, observava a própria inércia sem que tivesse forças para lutar contra ela. Todo pensamento que tentava relembrar o que já fora e a capacidade que tinha era esmagado pelo histórico recente. O espírito o abandonara. O menino já não estava ali. O logos não estava mais com ele. É nessas horas que o Diabo aparece, pensou. Mas o Diabo não o salvaria. Oh não, não a ele. Muito em breve Camila chegaria. Teria que recebê-la e entretê-la por algumas horas. Como dizer a verdade sem deixar de ser cavalheiro? Em meio a todos os papeis que desempenhou já não sabia mais quem era. Na verdade sabia e era isso que doía. Era um homem triste, pois tinha visto sua última vaidade tornar-se um jogo e nele aniquilar-se. O que sobrara? Como poderia se reconstruir? Nada mais no mundo podia encantar seu espírito. Certamente que podia se entreter algumas horas, mas o abismo o acompanharia sempre. O menino que sorria tinha se ido. A campainha tocou. O menino não poderia atender. Levantou-se, pegou um livro, assim poderia disfarçar os olhos pesados e avermelhados… a ingênua Camila pensaria que estava concentrado em alguma leitura importante. Sentir-se-ia mesmo culpada por incomodá-lo e perturbar seus afazeres tão importantes. Ela mostraria o quanto se importa com ele, o quanto ele é talentoso, inteligente e interessante, enquanto ele tentaria suportar sua presença. A dela e a dele. Com sua capacidade certamente seria capaz de tirar algo de interessante desse encontro. Por que não poderia ele deixar de lado aquelas reflexões e desfrutar da companhia de uma bela moça? Mas como poderia suportar a verdade, de saber que ele não era o que desde sempre pressupôs? Teria sido fácil inventar qualquer desculpa e evitar aquele encontro, mas se conteve, esboçou um sorriso de canto ao vê-la. Sorriu com o lado direito de modo que visse sua covinha… ao se dar conta desgostou-se ainda mais de si mesmo. Cumprimentou-a e pediu que entrasse. Ela lhe trouxera um pequeno livro de presente, era uma versão comentada do Elogio de Helena de Górgias. Certamente porque lhe falara sobre este no último encontro que tiveram. O livro certamente vinha da biblioteca de seu pai. Era de se duvidar que alguém o tivesse jamais lido. Ele pode então imaginar Camila, sentada em sua cama com o livro, tentando extrair algo de inteligente dele para lhe falar, tentando ver nele o que fazia o homem pelo qual se enamorara ter tanto apreço por aquela obra. Por fim certamente desistiu e preferiu dar vazão aos seus pensamentos de menina. Quando ele a beijaria de novo? Será que poderiam ir ao teatro juntos? Como seria bom se Julia os visse juntos então. Ou poderiam simplesmente ser pegos de surpresa por uma chuva pesada e ficar presos na carruagem… Que vestido usaria? Em um espírito jovem e ansioso por experiências como o dela não havia lugar para a reflexão como no dele. Não que ela fosse inculta, pelo contrário até demonstrara mais interesse nesses assuntos que a maioria. Guardou o livro de volta na estante e após vê-la dizer que poderia voltar outra hora se estivesse ocupado disse que aquilo poderia esperar e que preferia sua companhia.

Como ele ficaria surpreso ao receber sua carta e ver o quão próxima da verdade ela estava. O futuro lhe guardava surpresas.

Parte 2

Não é possível falar da vida de Jean sem falar do livro intitulado Principia Philosophia catalogado como psicologia pela editora e publicado no ano de 1926 em Ouro Preto, Minas Gerais. Sua tiragem foi pequena, não teve uma nova edição tão cedo e quase todos os exemplares foram parar em bibliotecas públicas ou universidades. Tratava das relações humanas, tanto em seu aspecto teórico quando no prático e propunha como forma de treinamento, a princípio, que se inventassem situações sociais, a que seu autor chamou jogos, onde um objetivo era criado e perseguido e impunha aos participantes, chamados jogadores, criar um modo, manipulando o meio social, de atingi-lo. Segundo o autor essa era a única maneira de se estudar as relações humanas e o único critério possível de verificação para esse ramo. Segundo ele, a única prova cabal que um estudante de retórica, por exemplo, pode dar de suas ideias e capacidade é ser um bom retórico, demonstrar sê-lo e ser capaz de ensinar retórica; por analogia, estudar relações humanas é se tornar um mestre da manipulação social e ser capaz de ensinar isso, o que vinha a ser um dos objetivos de seu livro, que embora tratasse deste assunto, o fazia motivado por preocupações filosóficas, ou talvez seja mais sábio dizer que se tratava de um projeto filosófico que envolvia esses aspectos. Uma parte do livro era dedicada a descrever estes jogos, como introduzi-los numa situação, como conduzi-los, como interferir neles, como identificar jogos, dos diversos papéis que se pode assumir em um jogo e etc. Por tratar de um assunto tão interessante (ou apelativo), cedo ou tarde ele seria notado e, esse era outro dos objetivos de seu autor, este assunto se tornaria um ramo autônomo de estudo. O livro acabou sendo notado e, para a decepção de seu autor, foi notado não por pessoas interessadas em instituir um novo ramo do saber, mas por pessoas ansiosas por manipular melhor seu meio social e, em certos círculos, pode se dizer que se tornou relativamente famoso. Por fim o livro seguiu o rumo que seguem livros assim, passou a ser estudado (ou ao menos citado) em algumas monografias, teses de mestrado e doutorado, foi o presente de pais a seus filhos, por conter resumido uma grande sabedoria prática e, por fim, reuniu algumas pessoas interessadas no livro e em seu autor. Um destes interessados falou sobre o livro a Jean que o comprou em um sebo, como já dissemos. Este amigo, sem pretender e sem prever, mesmo sem saber, ligou para sempre a vida de Jean a este livro.

Parte 3

Foi aos 22 anos Jean que encontrou o Mestre, conhecedor profundo do Principia Philosophia e dos jogos. Um dia, enquanto lia na biblioteca da faculdade, lembrou-se de uma passagem do Principia e teve um insight, quis conferir se sua interpretação estava correta ou se ao menos fazia sentido, mas como não estava com seu exemplar do Principia foi consultar o exemplar da biblioteca. Para sua surpresa, o livro estava cheio de comentários nas laterais das páginas, comentários inteligentes, como logo notou. Pegou o livro emprestado e acabou por devolver o seu, ficando com o exemplar comentado. Nas próximas semanas acabou por reler todo o livro seguindo os comentários e se deu conta de que ainda estava longe do ideal, de que em sua leitura deixara escapar muitas coisas, que precisava evoluir e, sobretudo, praticar. Mas mais do que a agudez dos comentários, o mais interessante era descobrir quem os havia escrito. Quanto mais lia, mais curioso ficava e logo mal conseguia se concentrar na leitura, quando se dava conta estava virando as páginas enquanto pensava em quem seria o autor. Passava as aulas pensativo, elaborando teorias sobre quem poderia sê-lo. Fazia seus lanches numa lanchonete que dava de frente para a entrada da biblioteca, observando os frequentadores desta. Suspeitava seriamente de um de seus colegas de aula, Cezar. Um sujeito baixinho de rosto arredondado, com grandes mechas grisalhas, apesar de ainda estar na casa dos quarenta. Era frequentador assíduo da biblioteca, dono de um intelecto invejável, possuía uma enorme cultura geral e parecia manejar muito bem seu meio social, que incluía Jean, pois embora não fossem amigos, eram colegas. Ele poderia conhecer o livro e ter feito aqueles comentários, pensava Jean, apesar do espírito daquelas notas não lembrar de modo algum sua fala, nem o que comumente defendia.

Certo dia, enquanto estava sentado lendo na biblioteca, viu um sujeito entrar no corredor onde estava o Principia. Pôs-se a observá-lo discretamente. O sujeito era alto, usava uma jaqueta de couro preta, calça jeans e sapatos também de couro. Segurava um papel, que, Jean supunha, indicava o número do livro que procurava. Era estranha sua presença ali, não se parecia com um professor e nem com aluno. Depois de alguma procura localizou seu livro. Quando o tirou da prateleira Jean pode ver que se tratava do Principia e seu coração disparou. O homem o pegou e se sentou de costas para Jean, na mesa da frente e começou por folhear o livro, deu uma olhada no índice e iniciou a leitura no que parecia ser a metade do livro. Tudo isso era suspeito, embora Jean não pudesse indicar exatamente o porquê. Após este encontro passou a frequentar assiduamente a biblioteca, assim como o estranho homem de jaqueta de couro, que sempre pegava o Principia e, algum tempo depois, passou a escrever no livro.

Um dia, após o homem guardar o livro e sair, Jean tirou-o da prateleira e pôs-se a ler o que o homem havia escrito. Os comentários embora não fossem idênticos, lembravam muito os do livro que Jean havia trocado. No meio do livro havia um bilhete, com um endereço.

Parte 4

Uma luz pálida emanava da lareira. Os contornos da sala pareciam oscilar conforme o fogo crepitava. Era aconchegante. Ali enquanto fitávamos o fogo ouvíamos o mestre. Este nos falava propondo temas, ora começando um encadeamento numa figura já conhecida ora começando pelas próprias figuras. Designava a cada um de nós um papel. Seu convite era de tal modo elaborado e tecido em meio à narrativa que éramos levados facilmente ao objetivo que ele tinha em mente sem que nunca pudéssemos antecipá-lo. Cada um participava e só compreendia sua participação e a função que exerceu no todo daquele jogo no fim, quando o mestre desvelava a imagem. Nós, os iniciados, ouvíamos atentos. Era como um maestro regendo uma orquestra, mas ao invés de sons brincava com formas, figuras e estruturas. Após o encontro éramos mandados direto para a cama. Assim ele o exigia. Eu jamais conseguia adormecer sem antes repetir todo o jogo, ainda fascinado por sua lógica intrincada e por sua beleza. Reverberava em mim cada cena e apenas tarde eu adormecia ainda fascinado e contra minha própria vontade.

No dia seguinte fomos convidados a visitar uma terra diferente. Ainda agora mesmo sabendo ser ela apenas imaginada, não posso deixar de devanear e pensar se ele realmente não esteve lá. Há muitas maneiras de se estar em um lugar. Caminhámos com ele por aquelas terras. Nosso guia falava do lugar com tal familiaridade que soava nativo. Contou-nos toda sua história, a história daquele povo, sua música. Sua geografia, filosofia e toda sua cultura. Ele até mesmo cantarolou algumas músicas e recitou poemas. Por fim, como de costume, nos vimos cada um em um papel participando daquele jogo. Nossa chegada era aguardada e lá travamos contato com muitos dos ilustres sábios daquele povo. Cada um desses encontros era como um livro aberto nunca acabado do qual participávamos e ajudávamos a escrever. Uma imagem ou duas sempre se sobressaía, podíamos sentir e aprender a lição que cada encontro oferecia. Meditávamos em cada uma dessas imagens. Pensar que o próximo seria o último encontro com aquele homem era doloroso. A criatividade e a lógica de suas criações pareciam insuperáveis. Podíamos ver ligações entre os dois encontros. Eu escavei outras tantas, já não tão óbvias. Sempre que terminávamos ele se dirigia até a porta, abria, parava, voltava-se novamente para nós e dizia: quem eu serei lá fora? Serei quem eu desejar.

A maneira como adivinhava nossas objeções e perguntas era assustadora, embora facilmente compreensível dado que eram sugeridas pela estrutura que ele mesmo apresentava. Nunca caia em discussões bobas, pois tinha domínio completo da conversa o tempo todo. Os rumores diziam que era um professor universitário ou um escritor de sucesso. Envolvido pelo manto e pelas sombras não podíamos ver seu rosto. Sua voz era poderosa. Exalava um doce e suave tom de comando. Embora não pudesse ver seu rosto era possível, ao menos me pareceu, sentir seu olhar.

Parte 5

Um dia enquanto estava deitado em sua cama, sem sono, os braços cruzados embaixo da cabeça, já tarde, sentiu o chamado. Sentir é uma maneira estranha de descrever a emergência dessa ideia em meio ao fluxo de pensamentos e emoções que então tinha. Talvez seja melhor dizer que um vento que balançava as árvores perto de sua janela adentrou em seu quarto como que trazendo aquela ideia. O mundo lá fora o chamava… de súbito levantou-se e foi até a janela. A voz, tão clara em sua mente, por um momento o fez pensar que havia alguém lá fora que o chamava. Ao respirar o ar fresco daquela noite seu corpo todo se arrepiou. O mundo o chamava, como sempre o chamou, mas dessa vez ele pode ouvir o chamado. Sua atenção voltou-se então para si mesmo, deu-se conta de uma voz em seu interior que cantava e sorria, tal qual uma criança, uma voz que há muito não ouvia, uma voz que há muito ele pensou ter morrido. Foi olhando a rua deserta, o farfalhar das folhas e as estrelas que uma certeza firmou-se em sua mente. A explosão de sentimentos que então subitamente tomou conta dele o dominou por completo. Antes que pudesse perceber já havia pulado a janela. O vento agradável chocava-se contra seu corpo. Abriu os braços enquanto girava olhando as estrelas. Poucos espíritos no mundo são capazes de sentir a liberdade que experimentou ele naquele momento. O corpo todo arrepiado queria correr. E ele correu. Correu o mais rápido que pode. O sorriso em seu rosto era a certeza do caminho escolhido. O que neste mundo pode desafiar um espírito naquele estado? Quando por fim já exausto parou e sentou-se no banco de uma praça escorrendo suor ainda tentava parar de sorrir. Sentado olhou para a lua e disse: Ó tu mãe de todos os amantes, deusa da luz pálida, que tu sejas minha musa, pois em mim surgem palavras. Hoje um menino nasceu, que meu antigo eu seja sacrificado em homenagem a este que chega. Ó tu luminar a guiar os perdidos na noite, que meu batismo seja aqui, sob tua pura luz. A mim chamarei Servo e ao destino encarrego de dar-me um sobrenome. Hoje os caminhos se desvelaram para mim e todo temor se foi. Só a certeza reina aqui. Clamo para que dias difíceis venham, pois que quero ser testado. Como pode aquele que viu a chama se apagar e se reacender sucumbir às fracas tentações deste mundo? Hoje astro perene tornei-me senhor de mim mesmo. Que mais pode desejar o homem? Farei de minha vida a chama a iluminar o caminho dos que virão. Alguns homens só podem se realizar desbravando densas selvas. Lua mãe, purifique este antigo eu, completamente, pois hoje o menino nasceu. Doce lua e guardiã da noite seja testemunha de meu nascimento. O menino nasceu. O menino nasceu Lua! Gritou ele muitas vezes a contemplar a lua. Por fim caminhou para casa, lentamente, em sua mente mil imagens. Ao se deitar adormeceu logo, pois que a experiência o deixara exausto. Doces sonhos teve aquela noite e acordou restaurado. Tomou um banho, fez café e tomou. Fez sua mochila e partiu. Não havia como ser o mesmo depois daquilo.

Parte 6

Apesar da cena não lhe ser estranha ele viu-se surpreendido novamente. A abertura que emanava dele fornecia uma espécie de aconchego aos outros. Quase que forçava uma amistosidade, um baixar a guarda. Essa abertura rompia facilmente o cotidiano e lançava as pessoas numa espécie de comunhão. Por que os outros se sentiam tentados a se esclarecer e mesmo se justificar perante ele? Seria ele tão sério a ponto de cobrar os outros somente pelo olhar? Ou será que viam nele o peso da existência autêntica, pairava sobre ele um ar grave, típico dos homens que já haviam visto o abismo? Talvez fosse simplesmente sua conduta correta e educada, mas ele gostava de pensar que algo mais estava em jogo. Por sua vez o que ela sentiu foi um olhar penetrante que indagava o seu íntimo, nunca antes havia sido observada assim. Um olhar intenso, curioso, mas desinteressado a interpelava. Era difícil não se entregar. De início ela pensou ser inocência, mas logo compreendeu o quanto este homem estava acima disso. Era uma pureza de propósito que o tornava tão intrigante. Nunca esqueceu a determinação que viu naqueles olhos. Olhos quase tristes ela diria. Não compreendeu exatamente o porquê agiu dessa maneira, mas em seu íntimo sabia que não podia ser vulgar com um homem desses, de modo que abandonou toda impropriedade.

Parte 7

Eu sou um sábio, da antiga linhagem de sábios. Aqueles de algum discernimento logo o percebem. Em geral se imagina os sábios como homens velhos, mas eles foram jovens e já dotados de sabedoria antes de seus últimos dias. Diz-se erroneamente que os sábios são aqueles que impassíveis suportam todos os males deste mundo. Seu coração duro não se permite amar, seus sentidos, privados de todo prazer, não despertam paixões violentas, sua mente, qual farol a iluminar os descaminhos a que o mundo conduz. Severos no espírito e rígidos com o corpo mantem-se alerta contra toda possibilidade de escapar ao controle da fria razão. Ah enganam-se. Como poucos conhecem realmente os sábios. Só os iluminados podem realmente vê-los como são, os outros podem apenas senti-los. Mas isto é o bastante para torna-los dignos de admiração. Feliz daqueles que estão à sua volta, pois que o sábio buscará despertar o que há de melhor neles. Eles serão vistos, como raramente o são. Todos estão carentes neste sentido, todos querem ser compreendidos. O sábio é o único que está ali sem parecer um obstáculo ou oponente, pois que de certa maneira ele está fora das possibilidades dos outros. Sua sabedoria os torna reconhecíveis de imediato, uma espécie de submissão voluntária opera de modo silencioso, eles parecem pressupô-la e os outros apenas os seguem. O caminho da sabedoria é solitário. Honras e prêmios não podem atrai-los e riqueza material lhes seria fácil conseguir de modo que a ignoram. Pouca coisa neste mundo desperta sua atenção, pois que estão cientes dos mecanismos pelos quais muitas coisas acontecem. Poucas surpresas os aguardam e eles têm estes raros momentos em alta conta. Eles valorizam a virtude e o caráter e outras coisas que são difíceis de conseguir, pois é a dificuldade que atrai os nobres de espírito. Embora seja um homem de ciência e dado a filosofar o verdadeiro sábio é o conhecedor dos caminhos e o mestre do encontro. Muitos os terão apenas como homens de serenidade, paciência e inteligência e não é mal que assim seja. Mas o sábio pode se permitir alguma vaidade, pois nem toda vaidade vem para o mal. Alguém dotado de sabedoria não pode nem que queira ignorar a raridade de suas capacidades. O sábio em seu caminho através deste mundo estará só, mesmo que acompanhado. A sabedoria é sem dúvida uma das filhas da solidão.

OBS

Só os apaixonados são felizes, e com isso não se diz verdade desconhecida embora muitos discordem. Isso ouvia Jean, enquanto tomava um café. Em meio ao burburinho e música, misturado a sons de tacos de sinuca e passos distinguiu claramente aquela frase, certamente porque viu nela algum teor de inteligência, mesmo que pequena. Ou talvez simplesmente tenha sido a voz feminina que a expressou. Revendo agora pensou até mesmo ter ouvido um suspiro a acompanhar. Virou-se buscando quem poderia ser dona daquela voz foi então que a viu… Chamava-se Camila, como soube mais tarde, menina doce de bons modos e inteligente. Era triste saber-se não sendo o amado que a fizera exclamar aquela frase. Ou será que a tinha lido em algum literato barato para donzelas? Os literatos, pensou, são como urubus que pairam e se aproveitam da miséria humana.

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