Elevador e Interação Social

Usar um elevador – eis uma situação paradigmática para o estudo da interação humana. Existem três regras do trato social que se tornam evidentes para nós quando estamos em um elevador com um ou mais estranhos:

1) Espaço vital – exigimos e concedemos ao outro um certo espaço ao redor do seu próprio corpo para que possa se movimentar e tomar com o seu. Apenas pessoas íntimas podem adentrar esse espaço. Qualquer aproximação excessiva de um estranho é alvo de olhares reprovadores e até mesmo de indignação. No elevador somos obrigados a compartilhá-lo com estranhos. O que gera algum constrangimento nos mais tímidos. Acontece também quando alguém vem falar com a gente e chega muito perto, quase juntam a cara na gente, sentimos um desconforto e que esta pessoa quebrou uma regra, e isso torna evidente que pressupomos que ele não deveria chegar tão perto.

2) Estruturação do tempo – o modo como estruturamos nosso tempo, isso é, o que fazemos com o nosso tempo também é uma regra que se mostra presente no elevador. No elevador só nos cabe esperar, não há muito que fazer e em geral soos obrigados a enfrentar um período de tempo desestruturado. Ficar de frente com outra pessoa com o tempo desestruturado é uma situação constrangedora para muitos. Por isso é comum pegar o celular, verificar as horas, verificar os bolsos ou a bolsa, se arrumar no espelho e etc, tudo isso para evitar o tempo desestruturado, a espera sem fazer nada. Isso é tão constrangedor que inventamos uma série de jogos, isso é, um conjunto de lances com estrutura mais ou menos definida, para nos entreter em situações assim: perguntar sobre o tempo, sobre a família, sobre futebol, sobre os estudos, trabalho e etc.

3) Desatenção civil – toda pessoa tem direito a poder agir e circular sem ser observada diretamente. No máximo um olhar de mapeamento e desviar os olhos em seguida. A prova de que essa é uma regra do trato social é que quando um estranho nos pega olhando para ela, sentimos que não devíamos estar olhando, desviamos o olhar, disfarçamos. No elevador torna-se difícil não olhar para as pessoas e o que é mais constrangedor do que dois rostos estranhos que se olham num tempo/contexto não estruturado? Por que não iniciar um jogo e dar estrutura a este tempo? O jogo tem uma estrutura definida, sabemos o que fazer, como nos comportar, o que facilita as coisas, isso é, estruturamos o tempo com ele.

Por jogo entendo uma interação já cristalizada, onde cada movimento já é conhecido de antemão, assim como o desfecho e mesmo assim insistimos em realizá-los, uma vez que ele estrutura nosso tempo e evita o desconforto. Tal como o seguinte jogo:

Pessoa 1: Oi.
Pessoa 2: Oi. Tudo bem?
Pessoa 1: Tudo sim. E você?
Pessoa 2: Tudo jóia. Está sumida.
Pessoa 1: Pois é, trabalhando muito. Na correria. E você, que tem feito?
Pessoa 2: Nada demais. Estudando, trabalhando.
Pessoa 1: Que bom te ver. Estou atrasada agora. Tenho que ir.
Pessoa 2: Eu também. Vê se aparece.
Pessoa 1: Apareço sim. Beijo.
Pessoa 2: Beijo. Tchau
Pessoa 1: Tchau.

Sim, estas regrinhas e inúmeras outras estão operando quando entramos no elevador. Certamente a vida não é muito semelhante a um jogo, mas a interação humana sim.

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