O Tractatus de Wittgenstein – Parte 1

Ludwig Wittgenstein (1889 - 1951)

O objetivo deste post é reconstruir uma parte do argumento principal do Tractatus Logico-Philosophicus de Ludwig Wittgenstein, filósofo tido como um dos mais importantes do século XX. Trata-se de uma obra complexa e de difícil leitura, pois pressupõe que o leitor esteja familiarizado com a filosofia alemã e inglesa do início do século XX, sobretudo com as obras de Bertrand Russel e Gotlob Frege. Mas é verdade que Wittgenstein sofreu influências de Arthur Schopenhauer, Immanuel Kant e Weininger. Embora estes posts (não se trata apenas de 1) sejam uma introdução ao Tractatus, não irei apenas fazer considerações sobre a obra. Trata-se, como já disse, de reconstruir seu argumento e para isso vou introduzir conceitos, defini-los, mostrar como operam no interior do sistema do Tractatus e etc. Segue a primeira parte, das 5 partes que compõem essa introdução. Caso este texto seja usado em trabalhos de faculdade ou monografias (TCC) peço que seja citada a fonte:

OLIVEIRA, Rodrigo Silva de – A Lógica da Linguagem, Uma Reconstrução Parcial do Tractatus de Wittgenstein. Monografia defendida na PUCRS. Porto Alegre, 2010.

Considerações Iniciais


Nesta parte iniciamos definindo alguns conceitos, como o conceito de proposição, nomes, significado entre outros. Faremos algumas relações entre estes conceitos também. Mostramos que a proposição é uma função fundamental da linguagem e que através dela podemos recriar a linguagem, mostramos como a partir de uma proposição geramos outra e falamos sobre os elementos da linguagem e como eles estão estruturados. Cabe, no entanto dizer alguma coisa sobre o que vamos fazer: o texto trata de uma aplicação da lógica à linguagem, buscando sua estrutura. O leitor pode entender o que iremos fazer como uma sistematização da linguagem. Logo no início mostramos que a função primordial de toda linguagem é descrever objetos, descrever o mundo. Que todas as outras funções podem ser extraídas desta. Assim, nossa análise se concentrará na função descritiva, pois tendo fundamentado esta todo o resto estará fundamentado. Tudo começa com a idéia de proposição.

1.1    A Proposição

Uma proposição é o conteúdo de uma sentença declarativa, ou seja, uma sentença que possui um valor de verdade.

Toda proposição possui um sentido, que é a situação possível que ela representa.

Algumas sentenças têm uma característica interessante: elas declaram alguma coisa e por isso podem ser verdadeiras ou falsas. Por exemplo, na sentença: “Tenho um gato preto” estou afirmando algo que pode ser verdadeiro ou falso. Com a sentença: “Não moro nessa cidade” embora contenha uma negação, também estou afirmando algo ou declarando algo que pode ser verdadeiro ou falso. Algumas sentenças não têm essa característica, como:

Está chovendo?
A porta está aberta!
Venha até aqui.

Não perguntamos se estas sentenças são verdadeiras ou falsas, pois elas são perguntas, exclamações ou ordens. Chamaremos as sentenças que podem ser verdadeiras ou falsas de proposição. Uma proposição é então uma sentença declarativa ou uma sentença que possui um valor de verdade, ou seja, uma sentença que pode ser verdadeira ou falsa. Outra característica das proposições é que as sentenças “o gato é preto” e “the cat is black” embora sejam sentenças diferentes, elas possuem o mesmo conteúdo, isso é, elas dizem a mesma coisa, a saber a circunstância de o gato ser preto. O mesmo acontece com as sentenças “Pedro ama Maria” e “Maria é amada por Pedro”, elas representam a mesma coisa, a saber, a circunstância de Pedro amar Maria. Embora sejam sentenças diferentes elas são a mesma proposição, pois elas possuem o mesmo conteúdo, isso é, dizem a mesma coisa. Por isso definimos proposição como o conteúdo de uma sentença declarativa, pois sentenças diferentes podem possuir o mesmo conteúdo. Podemos identificar outra característica ainda das proposições, elas representam uma situação possível, uma situação que pode ou não ser o caso. Vejamos estes exemplos:

Há 50 livros nessa estante.

Esquema de uma proposição

O presente está dentro de uma caixa pequena e esta está dentro de uma caixa grande.

Sócrates é um filósofo ateniense.

Como podemos ver, as proposições acima descrevem uma situação que pode ser verdadeira ou falsa. Se a situação representada pela proposição realmente for o caso, então a proposição é verdadeira. Chamaremos de sentido de uma proposição a situação possível representada por ela. Uma proposição tem um valor de verdade porque é uma representação de uma situação possível e o sentido de uma proposição é a situação possível que ela representa. Assim chegamos à definição de proposição: uma proposição é o conteúdo de uma sentença declarativa, isso é, uma sentença que possui um valor de verdade e um sentido.

1.2    A proposição é a função mais básica da linguagem

Edição Brasileira do Tractatus de Wittgenstein publicado pela EDUSP.

As funções exclamativa, interrogativa e imperativa pressupõem a função proposicional representada pela proposição.

A proposição é a função mais básica de toda linguagem.

Embora obviamente a linguagem tenha outras funções além daquela representada pela proposição, como definimos acima, podemos considerar a proposição como a função mais básica da linguagem. Isso é possível porque aparentemente todas as outras funções da linguagem podem ser explicadas pela noção de proposição.

Além de fazer sentenças declarativas, que é o que fazemos quando enunciamos uma proposição, usamos a linguagem também para fazer perguntas, para fazer exclamações e dar ordens. Essas funções podem ser exemplificadas da seguinte maneira:

(1) O livro está sobre a mesa.

(2) O livro está sobre a mesa?

(3) O livro está sobre a mesa!

(4) Ponha o livro sobre a mesa.

Em (1) temos uma proposição, uma declaração está sendo feita, ela tem um valor de verdade, será verdadeira se o livro estiver sobre a mesa e falsa se não estiver. Acreditamos que é a partir da proposição, representada em (1), que conseguimos fazer também os usos (2), (3) e (4). Em (2) perguntamos pelo valor de verdade de (1), em (3) nos sentimos espantados com a verdade de (1) e em (4) emitimos uma ordem para que (1) torne-se verdadeiro. Assim parece que a proposição representa a função mais básica da linguagem, função da qual todas as outras funções podem ser extraídas.

1.3    Proposições complexas e proposições simples

Proposições complexas são um conjunto articulado de proposições simples.

Toda proposição composta pode ser decomposta em proposições simples.

Toda proposição possui um sentido e um valor de verdade, mesmo as proposições simples.

Uma proposição tem um valor de verdade porque é uma representação de uma situação possível.

Uma proposição tem sentido independentemente do valor de verdade qualquer proposição.

Vejamos o seguinte exemplo:

( P) “Se eu sei falar português e faço uso dessa língua todos os dias então eu conheço as regras que regem o português e a estrutura da língua.”

Isso é uma proposição? Mais de uma? Quantas? Para responder a essas perguntas precisamos introduzir uma distinção. Chamaremos de proposição simples uma proposição cujo sentido seja uma idéia simples, impossível de ser divida em partes sem perder seu sentido. No exemplo acima “Eu sei falar português” é uma proposição simples. A proposição (P) inteira é uma proposição complexa, que é um conjunto articulado de proposições simples. Analisando a sentença (P) segundo essa distinção teremos:

(1) Eu sei falar português.

(2) Eu faço uso da língua portuguesa todos os dias.

(3) Eu conheço as regras que regem a língua portuguesa

(4) Eu conheço a estrutura da língua portuguesa.

Essa análise mostra que a proposição complexa (P) se divide em 4 proposições simples.

Dada essa distinção toda proposição complexa pode ser decomposta em proposições simples.

Dada a seguinte proposição complexa:

(Q) Se T é uma teoria derivada da experiência e T não se baseia em opiniões preconceituosas e essa teoria resiste a testes empíricos então ela é uma teoria científica.

De acordo com o que dissemos acima, essa proposição complexa pode ser decomposta nas seguintes proposições simples:

(1) T é uma teoria derivada da experiência

(2) T não se baseia em opiniões preconceituosas

(3) T resiste a testes empíricos

(4) T é uma teoria científica

Assim, (Q) se compõe de quatro proposições simples. Cada proposição simples tem um sentido e um valor de verdade também? Cada uma das quatro proposições simples (1), (2), (3) e (4) possuem um sentido e um valor de verdade. Isso nos mostra o seguinte: não existem proposições sem sentido e sem um valor de verdade. Uma sentença que não possui sentido ou valor de verdade é um contrasenso, não uma proposição.

Bertrand Russel (1872 - 1970)

Mas, se cada uma delas tem um valor de verdade e um sentido, como fica o sentido da proposição complexa? Imaginemos uma proposição complexa como a seguinte:

(R) O atual imperador do Brasil é corrupto e mulherengo.

Dado o que temos definido até agora (R) é uma proposição legítima. Sabemos, no entanto, que não existe nenhum atual imperador do Brasil, então qual o sentido e o valor de verdade de uma proposição assim, dado que todas as proposições legítimas possuem um sentido e um valor de verdade?

A proposição (R) é uma abreviação de quatro proposições na verdade:

(1) “Há algo que é o atual imperador do Brasil”,

(2) “Há apenas uma coisa que é o atual imperador do Brasil”,

(3) “Aquilo que é o atual Imperador do Brasil é corrupto” e

(4) “Aquilo que é o atual imperador do Brasil é mulherengo”.

Quando um artigo definido (o ou a) acompanha um nome ou uma descrição temos o que chamamos de uma descrição definida. A função lógica do artigo definido é afirmar a existência da descrição ou nome que ele acompanha. Por exemplo, quando dizemos “O presidente do Brasil é carismático” queremos com isso dizer não só que se existir um presidente do Brasil ele será carismático, estamos afirmando que ele existe e que é único, isso é, ninguém mais é o presidente do Brasil a não ser ele e que além disso ele é carismático. Por isso a proposição (R) além de afirmar (3) e (4), afirma também (1) e (2).

Podemos pensar que o ter um valor de verdade da proposição complexa (R), seja ele qual for, depende da verdade de (1), de que exista o tal atual imperador do Brasil. Esse não é o caso, o ter um valor de verdade de (R) depende apenas do ter um valor de verdade de (1), seja ele qual for, não da verdade de (1), de que exista o tal atual imperador do Brasil. O que exige a verdade de (1) não é o ter valor de verdade de (R), mas a verdade de (R). A proposição complexa (R) só será verdadeira se de fato existir o tal atual imperador do Brasil e ele for corrupto e mulherengo, mas a proposição R terá um valor de verdade independentemente de que exista de fato tal sujeito, o único requisito é que (1) tenha um valor de verdade, seja ele qual for.

Essa análise nos permite ver o seguinte: uma proposição tem um valor de verdade porque é uma representação de uma situação possível, o sentido de uma proposição é a situação possível que ela representa. Uma proposição tem sentido independentemente de qual seja o valor de verdade de qualquer proposição, ainda que não independentemente de que elas tenham um valor de verdade. Uma proposição pode possuir um valor de verdade independentemente de que um objeto satisfaça a descrição que ela apresenta. Isso é, independentemente, portanto, da verdade da proposição que diz que um objeto é tal como a descrição diz que ele é. Por isso, uma proposição possui um valor de verdade independentemente de qual seja o valor de verdade das proposições que resultam da sua análise, mesmo que dependa de que tais proposições possuam um valor de verdade. Assim podemos afirmar então que uma proposição possui um valor de verdade independentemente de qual seja o valor de verdade de qualquer proposição. Conhecendo o sentido de uma proposição sabemos quais são as condições sob as quais ela é verdadeira. Dado isso podemos determinar quais são as implicações lógicas de uma proposição, desde que saibamos qual é o seu sentido.

1.4    A proposição e os nomes

Uma proposição é um conjunto de nomes articulados em uma determinada forma.

Nomes não possuem sentido, a proposição simples é a menor unidade lingüística dotada de sentido.

Apenas no contexto da proposição um nome possui significado.

Já sabemos o que é uma proposição, mas podemos perguntar: do que é constituída uma proposição? Uma proposição complexa é constituída de proposições simples, mas do que é constituída uma proposição simples? De palavras, obviamente, ou melhor dizendo, de nomes. No entanto, um conjunto qualquer de nomes não é uma proposição no entanto. Assim, a proposição não é apenas um conjunto de nomes. Para que um conjunto de nomes seja uma proposição, esses nomes devem estar articulados de uma determinada forma. Uma proposição não é apenas um conjunto de nomes, ela tem uma estrutura, uma forma.

A proposição possui um sentido, que é a situação possível que ela representa. Podemos perguntar: ambas as proposições possuem sentido? As simples e as complexas? O sentido das proposições complexas é dado pela articulação do sentido das proposições simples e o sentido da proposição simples é a situação possível que ela representa. Podemos perguntar novamente: os nomes que compõem a proposição simples também possuem sentido? Lembrando que definimos sentido como uma situação possível representada. Os nomes não possuem sentido, eles denotam objetos, não situações, a menor unidade lingüística dotada de sentido é a proposição simples. Os nomes designam objetos, apontam para objetos. Chamaremos de significado de um nome o objeto por ele apontado. O significado de um nome é o objeto por ele apontado. Cada nome aponta para um objeto de maneira unívoca, ou seja, cada nome designa um objeto específico e um mesmo nome não é dado a mais de um objeto. Acrescentamos também que apenas na proposição, dentro de uma proposição, um nome possui significado, nomes isolados nada significam, não apontam para objeto algum. Essa tese é fundamental, é porque os nomes designam objetos de maneira unívoca que a proposição pode representar uma situação, ou seja, ter um sentido.

Dissemos que a proposição possui sentido e que as proposições se dividem em simples e complexas. Como as proposições complexas são conjuntos articulados de proposições simples, a menor unidade lingüística dotada de sentido é a proposição simples.

7 Responses to O Tractatus de Wittgenstein – Parte 1

  1. marzullo says:

    Você está de parabéns pelo texto e pelos esclarecimentos iniciais.
    Irá ajudar muito para quem for ler o Tractatus Logico-Philosophicus e não tem formação filosófica ou é de outra área da Filosofia que não a Analítica.

    Gostaria de saber como posso ter acesso a esta sua monografia, pois apesar de “minha praia” ser Filosofia Continental (Fenomenologia/Heidegger) estou querendo ler o Tractatus mas antes preciso de um bom trabalho de apoio.

    Como estudo Heidegger já a algumas décadas, posso lhe dar algumas “dicas quentes”.

    • Rodrigo says:

      Que legal, grato pelo comentário. Eu realmente quis fazer o trabalho para que fosse didático, bem introdutório, mas aprofundando os temas.
      No momento eu estou me digladiando com o Introdução a Filosofia e Ser e Tempo… então vou querer sua ajuda sim. A longo prazo quero esquadrinhar Ser e Tempo tal como
      fiz com o Tractatus.

      O texto postado no site é o mesmo da minha monografia, faltam as últimas 3 partes, no entanto.

      Recebi uma mensagem de um professor, me alertando para que pudessem usar o trabalho como trabalho, monografia e etc… então estou meio cabreiro, o que é uma pena e realmente lamento.
      Privar outros do texto por causa de um ou outro medíocre, mas vamos conversando.
      Aproveite a leitura das duas partes e assim que nos familiarizarmos lhe envio o texto. Pode ser?

  2. Florentino says:

    Pesso help para falar de logica proporcional

  3. Maria Angélica de Almeida says:

    Faça virar livro, que vou correndo comprar.

  4. Do que tenho “vasculhado” por ai´sobre o positivismo; os ditos racionais, entender o atomismo lógico do referido autor, na sua interpretação, me deu um alcance melhor na compreensão dessa polêmica teoria , que causou reboliço entre os positivistas…Adoro essa fofocada entre eles..rsrsr E salve! salve! Todas as convergências que deixam tudo, um tanto ou quanto confuso para um simples leitor que busca determinado saber…Que venham outros pensadores transcendendo os disparates deixados pelos antigos; E que como eles, conseguiram cumprir o seu papel: despertar as críticas!! Contanto sempre exista algum escritor talentoso, para traduzir a toda ideia…Um assim, como você..Que traduziu “Tractatus de Wittgenstein”, maravilhosamente bem!! Excelente interpretação! Parabéns!

  5. Maria de Jesus Rodrigues says:

    Gostei muito desse trabalho, foi muito bem elaborado a ponto de não deichar dúvidas. Parabéns!

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