Da Utilidade da História para a Vida

Da Utilidade da história para a vida

Rodrigo S. de Oliveira

A memória é a faculdade de “suscitar as imagens das percepções passadas e de encadeá-las com as que sentimos no presente, sem ela não poderíamos realizar a continuidade que funda o sentimento de que somos um eu.” A memória constrói o eu, é através dela que nos sentimos como uma identidade distinta, diferente do meio. Mas ela não é apenas isso, pois se a memória fosse apenas as lembranças armazenadas pelo cérebro das pessoas ela seria insuficiente para explicar a abertura ao futuro que define a vida individual e mesmo a vida coletiva.

Perguntemos: o que vale para o indivíduo vale também para a sociedade? Devemos aplicar à sociedade os mesmos esquemas teóricos que usamos para o indivíduo? Se sim, a sociedade seria entendida então como “um foco de impressões e representações, um misto de realidades e fantasias, a se emaranharem, se engavetarem, agirem juntas e se coordenarem numa memória coletiva.” Mas nem todo o passado emerge, o que emerge é apenas aquele de que o “presente vivo tem necessidade, igual ao individuo que retém primeiro as lembranças que reavivam suas impressões do momento e que garantem seu sentimento de ser único.”.

Pensemos aqui na Europa do futuro: ela será, em princípio, um aglomerado de povos e entidades nacionais, as quais resultam da coesão histórica e cultural de indivíduos.

“Mas conseguiremos fazer com que nasça uma identidade da Europa através das lembranças e representações dos povos? Assim como as lembranças do indivíduo formam sua identidade, o mesmo acontecerá com a Europa? O que se ganharia lembrando que a Europa deve sua existência à ruína da cidade grega, à destruição do templo de Jerusalém e à queda do império Romano?”

Não se fará unidade justapondo os símbolos do passado comum das nações que compõem a Europa, a não ser que se atente para o poder de reestruturação continuada que ele traduz. Talvez seja o caso então de incentivar o cruzamento das histórias, a circulação dos relatos e até a ficção das entidades.

“Nada de Europa, portanto, sem um projeto que mobilize de maneira seletiva o passado dos povos. A inteligência dos povos desejosos de nela se reconhecer mede-se menos pelo capital de lembranças que poderiam depositar na comunidade do que pelo domínio que têm das estratégias para solicitar sua história singular, à mercê das urgências do presente.” Essa virtude da metamemória que seleciona o que convêm ao presente e que melhor pode realizar o sentimento de unidade é uma ilusão necessária à sobrevivência.

Isso parece ser similar ao que Nietzsche diz na segunda das Considerações Extemporâneas. Segundo ele, se é a felicidade que faz com que o homem se apegue à vida, o que o força a viver, então necessariamente devemos evitar o excesso de história, pois o que faz da felicidade felicidade é o poder de esquecer ou a capacidade de poder sentir a-historicamente: se alguém não fosse capaz de esquecer ou olhasse para o mundo sempre como um vir-a-ser, esse alguém não saberia o que é a felicidade. É possível viver quase que sem lembranças, e viver feliz como nos mostram os animais, mas é impossível viver sem esquecimento. Dito de outra forma: há um grau de sentido histórico no qual o ser vivo chega a sofrer dano e por fim destrói a si mesmo, seja ele um homem ou um povo, ou ainda uma civilização.

O excesso de história vai contra a vida e a vida mesma é uma potência oposta à história. Os homens históricos “acreditam que o sentido da existência, no decorrer de seu processo, virá cada vez mais à luz; eles só olham para trás para, na consideração do processo até agora, entenderem o presente e aprenderem a desejar com mais veemência o futuro.” Eles não sabem o “quão a-historicamente, a despeito de toda sua história, eles pensam e agem, e como até mesmo sua ocupação com a história não está a serviço do conhecimento puro, mas da vida”. E a sabedoria se opõe a vida. Se há excesso de história a vida desmorona e degenera. “Entregamo-nos imoderadamente à história quando o futuro já perdeu todo atrativo”. Contra essa desagregação ligada à incapacidade de esquecer ou de selecionar no passado o que serviria a ação, Nietzsche inventou o “mito do futuro”. “À falta de mito, escrevia Nietzsche, toda civilização perde o saudável vigor que lhe vem da natureza; só um horizonte circunscrito por mitos confere sua unidade a uma civilização”. Portanto, aprendamos a “cultivar história em função dos fins da vida! Então concederemos de bom grado aos homens históricos que eles possuem mais sabedoria do que nós; caso pudermos, simplesmente, estar seguros de possuir mais vida do que eles…”.

Bibliografia: Friedrich Nietzsche – Os Pensadores – Editora Abril.

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One Response to Da Utilidade da História para a Vida

  1. Eu queria me informar qual a utilidade da história para a nossa vida?

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