Esboço

Parte 1

Não saber o que se é, não ter domínio sobre si, não poder confiar em si mesmo. Eis o que era Jean naqueles dias. Em sua mente uma imagem esmaecida do que ele já fora. Ah como ele tinha orgulho de si mesmo. É estranho pensar em como chegou aquele ponto, pois que era um homem inteligente. É certo que presenciou cada passo em direção ao abismo. Talvez Jean tenha entrado em um jogo perigoso e exigiu demais de si mesmo. O que costuma acontecer com homens talentosos… Sentado na poltrona sem vontade mesmo de levantar, observava a própria inércia sem que tivesse forças para lutar contra ela. Todo pensamento que tentava relembrar o que já fora e a capacidade que tinha era esmagado pelo histórico recente. O espírito o abandonara. O menino já não estava ali. O logos não estava mais com ele. É nessas horas que o Diabo aparece, pensou. Mas o Diabo não o salvaria. Oh não, não a ele. Muito em breve Camila chegaria. Teria que recebê-la e entretê-la por algumas horas. Como dizer a verdade sem deixar de ser cavalheiro? Em meio a todos os papeis que desempenhou já não sabia mais quem era. Na verdade sabia e era isso que doía. Era um homem triste, pois tinha visto sua última vaidade tornar-se um jogo e nele aniquilar-se. O que sobrara? Como poderia se reconstruir? Nada mais no mundo podia encantar seu espírito. Certamente que podia se entreter algumas horas, mas o abismo o acompanharia sempre. O menino que sorria tinha se ido. A campainha tocou. O menino não poderia atender. Levantou-se, pegou um livro, assim poderia disfarçar os olhos pesados e avermelhados… a ingênua Camila pensaria que estava concentrado em alguma leitura importante. Sentir-se-ia mesmo culpada por incomodá-lo e perturbar seus afazeres tão importantes. Ela mostraria o quanto se importa com ele, o quanto ele é talentoso, inteligente e interessante, enquanto ele tentaria suportar sua presença. A dela e a dele. Com sua capacidade certamente seria capaz de tirar algo de interessante desse encontro. Por que não poderia ele deixar de lado aquelas reflexões e desfrutar da companhia de uma bela moça? Mas como poderia suportar a verdade, de saber que ele não era o que desde sempre pressupôs? Teria sido fácil inventar qualquer desculpa e evitar aquele encontro, mas se conteve, esboçou um sorriso de canto ao vê-la. Sorriu com o lado direito de modo que visse sua covinha… ao se dar conta desgostou-se ainda mais de si mesmo. Cumprimentou-a e pediu que entrasse. Ela lhe trouxera um pequeno livro de presente, era uma versão comentada do Elogio de Helena de Górgias. Certamente porque lhe falara sobre este no último encontro que tiveram. O livro certamente vinha da biblioteca de seu pai. Era de se duvidar que alguém o tivesse jamais lido. Ele pode então imaginar Camila, sentada em sua cama com o livro, tentando extrair algo de inteligente dele para lhe falar, tentando ver nele o que fazia o homem pelo qual se enamorara ter tanto apreço por aquela obra. Por fim certamente desistiu e preferiu dar vazão aos seus pensamentos de menina. Quando ele a beijaria de novo? Será que poderiam ir ao teatro juntos? Como seria bom se Julia os visse juntos então. Ou poderiam simplesmente ser pegos de surpresa por uma chuva pesada e ficar presos na carruagem… Que vestido usaria? Em um espírito jovem e ansioso por experiências como o dela não havia lugar para a reflexão como no dele. Não que ela fosse inculta, pelo contrário até demonstrara mais interesse nesses assuntos que a maioria. Guardou o livro de volta na estante e após vê-la dizer que poderia voltar outra hora se estivesse ocupado disse que aquilo poderia esperar e que preferia sua companhia.

Como ele ficaria surpreso ao receber sua carta e ver o quão próxima da verdade ela estava. O futuro lhe guardava surpresas.

Parte 2

Não é possível falar da vida de Jean sem falar do livro intitulado Principia Philosophia catalogado como psicologia pela editora e publicado no ano de 1926 em Ouro Preto, Minas Gerais. Sua tiragem foi pequena, não teve uma nova edição tão cedo e quase todos os exemplares foram parar em bibliotecas públicas ou universidades. Tratava das relações humanas, tanto em seu aspecto teórico quando no prático e propunha como forma de treinamento, a princípio, que se inventassem situações sociais, a que seu autor chamou jogos, onde um objetivo era criado e perseguido e impunha aos participantes, chamados jogadores, criar um modo, manipulando o meio social, de atingi-lo. Segundo o autor essa era a única maneira de se estudar as relações humanas e o único critério possível de verificação para esse ramo. Segundo ele, a única prova cabal que um estudante de retórica, por exemplo, pode dar de suas ideias e capacidade é ser um bom retórico, demonstrar sê-lo e ser capaz de ensinar retórica; por analogia, estudar relações humanas é se tornar um mestre da manipulação social e ser capaz de ensinar isso, o que vinha a ser um dos objetivos de seu livro, que embora tratasse deste assunto, o fazia motivado por preocupações filosóficas, ou talvez seja mais sábio dizer que se tratava de um projeto filosófico que envolvia esses aspectos. Uma parte do livro era dedicada a descrever estes jogos, como introduzi-los numa situação, como conduzi-los, como interferir neles, como identificar jogos, dos diversos papéis que se pode assumir em um jogo e etc. Por tratar de um assunto tão interessante (ou apelativo), cedo ou tarde ele seria notado e, esse era outro dos objetivos de seu autor, este assunto se tornaria um ramo autônomo de estudo. O livro acabou sendo notado e, para a decepção de seu autor, foi notado não por pessoas interessadas em instituir um novo ramo do saber, mas por pessoas ansiosas por manipular melhor seu meio social e, em certos círculos, pode se dizer que se tornou relativamente famoso. Por fim o livro seguiu o rumo que seguem livros assim, passou a ser estudado (ou ao menos citado) em algumas monografias, teses de mestrado e doutorado, foi o presente de pais a seus filhos, por conter resumido uma grande sabedoria prática e, por fim, reuniu algumas pessoas interessadas no livro e em seu autor. Um destes interessados falou sobre o livro a Jean que o comprou em um sebo, como já dissemos. Este amigo, sem pretender e sem prever, mesmo sem saber, ligou para sempre a vida de Jean a este livro.

Parte 3

Foi aos 22 anos Jean que encontrou o Mestre, conhecedor profundo do Principia Philosophia e dos jogos. Um dia, enquanto lia na biblioteca da faculdade, lembrou-se de uma passagem do Principia e teve um insight, quis conferir se sua interpretação estava correta ou se ao menos fazia sentido, mas como não estava com seu exemplar do Principia foi consultar o exemplar da biblioteca. Para sua surpresa, o livro estava cheio de comentários nas laterais das páginas, comentários inteligentes, como logo notou. Pegou o livro emprestado e acabou por devolver o seu, ficando com o exemplar comentado. Nas próximas semanas acabou por reler todo o livro seguindo os comentários e se deu conta de que ainda estava longe do ideal, de que em sua leitura deixara escapar muitas coisas, que precisava evoluir e, sobretudo, praticar. Mas mais do que a agudez dos comentários, o mais interessante era descobrir quem os havia escrito. Quanto mais lia, mais curioso ficava e logo mal conseguia se concentrar na leitura, quando se dava conta estava virando as páginas enquanto pensava em quem seria o autor. Passava as aulas pensativo, elaborando teorias sobre quem poderia sê-lo. Fazia seus lanches numa lanchonete que dava de frente para a entrada da biblioteca, observando os frequentadores desta. Suspeitava seriamente de um de seus colegas de aula, Cezar. Um sujeito baixinho de rosto arredondado, com grandes mechas grisalhas, apesar de ainda estar na casa dos quarenta. Era frequentador assíduo da biblioteca, dono de um intelecto invejável, possuía uma enorme cultura geral e parecia manejar muito bem seu meio social, que incluía Jean, pois embora não fossem amigos, eram colegas. Ele poderia conhecer o livro e ter feito aqueles comentários, pensava Jean, apesar do espírito daquelas notas não lembrar de modo algum sua fala, nem o que comumente defendia.

Certo dia, enquanto estava sentado lendo na biblioteca, viu um sujeito entrar no corredor onde estava o Principia. Pôs-se a observá-lo discretamente. O sujeito era alto, usava uma jaqueta de couro preta, calça jeans e sapatos também de couro. Segurava um papel, que, Jean supunha, indicava o número do livro que procurava. Era estranha sua presença ali, não se parecia com um professor e nem com aluno. Depois de alguma procura localizou seu livro. Quando o tirou da prateleira Jean pode ver que se tratava do Principia e seu coração disparou. O homem o pegou e se sentou de costas para Jean, na mesa da frente e começou por folhear o livro, deu uma olhada no índice e iniciou a leitura no que parecia ser a metade do livro. Tudo isso era suspeito, embora Jean não pudesse indicar exatamente o porquê. Após este encontro passou a frequentar assiduamente a biblioteca, assim como o estranho homem de jaqueta de couro, que sempre pegava o Principia e, algum tempo depois, passou a escrever no livro.

Um dia, após o homem guardar o livro e sair, Jean tirou-o da prateleira e pôs-se a ler o que o homem havia escrito. Os comentários embora não fossem idênticos, lembravam muito os do livro que Jean havia trocado. No meio do livro havia um bilhete, com um endereço.

Parte 4

Uma luz pálida emanava da lareira. Os contornos da sala pareciam oscilar conforme o fogo crepitava. Era aconchegante. Ali enquanto fitávamos o fogo ouvíamos o mestre. Este nos falava propondo temas, ora começando um encadeamento numa figura já conhecida ora começando pelas próprias figuras. Designava a cada um de nós um papel. Seu convite era de tal modo elaborado e tecido em meio à narrativa que éramos levados facilmente ao objetivo que ele tinha em mente sem que nunca pudéssemos antecipá-lo. Cada um participava e só compreendia sua participação e a função que exerceu no todo daquele jogo no fim, quando o mestre desvelava a imagem. Nós, os iniciados, ouvíamos atentos. Era como um maestro regendo uma orquestra, mas ao invés de sons brincava com formas, figuras e estruturas. Após o encontro éramos mandados direto para a cama. Assim ele o exigia. Eu jamais conseguia adormecer sem antes repetir todo o jogo, ainda fascinado por sua lógica intrincada e por sua beleza. Reverberava em mim cada cena e apenas tarde eu adormecia ainda fascinado e contra minha própria vontade.

No dia seguinte fomos convidados a visitar uma terra diferente. Ainda agora mesmo sabendo ser ela apenas imaginada, não posso deixar de devanear e pensar se ele realmente não esteve lá. Há muitas maneiras de se estar em um lugar. Caminhámos com ele por aquelas terras. Nosso guia falava do lugar com tal familiaridade que soava nativo. Contou-nos toda sua história, a história daquele povo, sua música. Sua geografia, filosofia e toda sua cultura. Ele até mesmo cantarolou algumas músicas e recitou poemas. Por fim, como de costume, nos vimos cada um em um papel participando daquele jogo. Nossa chegada era aguardada e lá travamos contato com muitos dos ilustres sábios daquele povo. Cada um desses encontros era como um livro aberto nunca acabado do qual participávamos e ajudávamos a escrever. Uma imagem ou duas sempre se sobressaía, podíamos sentir e aprender a lição que cada encontro oferecia. Meditávamos em cada uma dessas imagens. Pensar que o próximo seria o último encontro com aquele homem era doloroso. A criatividade e a lógica de suas criações pareciam insuperáveis. Podíamos ver ligações entre os dois encontros. Eu escavei outras tantas, já não tão óbvias. Sempre que terminávamos ele se dirigia até a porta, abria, parava, voltava-se novamente para nós e dizia: quem eu serei lá fora? Serei quem eu desejar.

A maneira como adivinhava nossas objeções e perguntas era assustadora, embora facilmente compreensível dado que eram sugeridas pela estrutura que ele mesmo apresentava. Nunca caia em discussões bobas, pois tinha domínio completo da conversa o tempo todo. Os rumores diziam que era um professor universitário ou um escritor de sucesso. Envolvido pelo manto e pelas sombras não podíamos ver seu rosto. Sua voz era poderosa. Exalava um doce e suave tom de comando. Embora não pudesse ver seu rosto era possível, ao menos me pareceu, sentir seu olhar.

Parte 5

Um dia enquanto estava deitado em sua cama, sem sono, os braços cruzados embaixo da cabeça, já tarde, sentiu o chamado. Sentir é uma maneira estranha de descrever a emergência dessa ideia em meio ao fluxo de pensamentos e emoções que então tinha. Talvez seja melhor dizer que um vento que balançava as árvores perto de sua janela adentrou em seu quarto como que trazendo aquela ideia. O mundo lá fora o chamava… de súbito levantou-se e foi até a janela. A voz, tão clara em sua mente, por um momento o fez pensar que havia alguém lá fora que o chamava. Ao respirar o ar fresco daquela noite seu corpo todo se arrepiou. O mundo o chamava, como sempre o chamou, mas dessa vez ele pode ouvir o chamado. Sua atenção voltou-se então para si mesmo, deu-se conta de uma voz em seu interior que cantava e sorria, tal qual uma criança, uma voz que há muito não ouvia, uma voz que há muito ele pensou ter morrido. Foi olhando a rua deserta, o farfalhar das folhas e as estrelas que uma certeza firmou-se em sua mente. A explosão de sentimentos que então subitamente tomou conta dele o dominou por completo. Antes que pudesse perceber já havia pulado a janela. O vento agradável chocava-se contra seu corpo. Abriu os braços enquanto girava olhando as estrelas. Poucos espíritos no mundo são capazes de sentir a liberdade que experimentou ele naquele momento. O corpo todo arrepiado queria correr. E ele correu. Correu o mais rápido que pode. O sorriso em seu rosto era a certeza do caminho escolhido. O que neste mundo pode desafiar um espírito naquele estado? Quando por fim já exausto parou e sentou-se no banco de uma praça escorrendo suor ainda tentava parar de sorrir. Sentado olhou para a lua e disse: Ó tu mãe de todos os amantes, deusa da luz pálida, que tu sejas minha musa, pois em mim surgem palavras. Hoje um menino nasceu, que meu antigo eu seja sacrificado em homenagem a este que chega. Ó tu luminar a guiar os perdidos na noite, que meu batismo seja aqui, sob tua pura luz. A mim chamarei Servo e ao destino encarrego de dar-me um sobrenome. Hoje os caminhos se desvelaram para mim e todo temor se foi. Só a certeza reina aqui. Clamo para que dias difíceis venham, pois que quero ser testado. Como pode aquele que viu a chama se apagar e se reacender sucumbir às fracas tentações deste mundo? Hoje astro perene tornei-me senhor de mim mesmo. Que mais pode desejar o homem? Farei de minha vida a chama a iluminar o caminho dos que virão. Alguns homens só podem se realizar desbravando densas selvas. Lua mãe, purifique este antigo eu, completamente, pois hoje o menino nasceu. Doce lua e guardiã da noite seja testemunha de meu nascimento. O menino nasceu. O menino nasceu Lua! Gritou ele muitas vezes a contemplar a lua. Por fim caminhou para casa, lentamente, em sua mente mil imagens. Ao se deitar adormeceu logo, pois que a experiência o deixara exausto. Doces sonhos teve aquela noite e acordou restaurado. Tomou um banho, fez café e tomou. Fez sua mochila e partiu. Não havia como ser o mesmo depois daquilo.

Parte 6

Apesar da cena não lhe ser estranha ele viu-se surpreendido novamente. A abertura que emanava dele fornecia uma espécie de aconchego aos outros. Quase que forçava uma amistosidade, um baixar a guarda. Essa abertura rompia facilmente o cotidiano e lançava as pessoas numa espécie de comunhão. Por que os outros se sentiam tentados a se esclarecer e mesmo se justificar perante ele? Seria ele tão sério a ponto de cobrar os outros somente pelo olhar? Ou será que viam nele o peso da existência autêntica, pairava sobre ele um ar grave, típico dos homens que já haviam visto o abismo? Talvez fosse simplesmente sua conduta correta e educada, mas ele gostava de pensar que algo mais estava em jogo. Por sua vez o que ela sentiu foi um olhar penetrante que indagava o seu íntimo, nunca antes havia sido observada assim. Um olhar intenso, curioso, mas desinteressado a interpelava. Era difícil não se entregar. De início ela pensou ser inocência, mas logo compreendeu o quanto este homem estava acima disso. Era uma pureza de propósito que o tornava tão intrigante. Nunca esqueceu a determinação que viu naqueles olhos. Olhos quase tristes ela diria. Não compreendeu exatamente o porquê agiu dessa maneira, mas em seu íntimo sabia que não podia ser vulgar com um homem desses, de modo que abandonou toda impropriedade.

Parte 7

Eu sou um sábio, da antiga linhagem de sábios. Aqueles de algum discernimento logo o percebem. Em geral se imagina os sábios como homens velhos, mas eles foram jovens e já dotados de sabedoria antes de seus últimos dias. Diz-se erroneamente que os sábios são aqueles que impassíveis suportam todos os males deste mundo. Seu coração duro não se permite amar, seus sentidos, privados de todo prazer, não despertam paixões violentas, sua mente, qual farol a iluminar os descaminhos a que o mundo conduz. Severos no espírito e rígidos com o corpo mantem-se alerta contra toda possibilidade de escapar ao controle da fria razão. Ah enganam-se. Como poucos conhecem realmente os sábios. Só os iluminados podem realmente vê-los como são, os outros podem apenas senti-los. Mas isto é o bastante para torna-los dignos de admiração. Feliz daqueles que estão à sua volta, pois que o sábio buscará despertar o que há de melhor neles. Eles serão vistos, como raramente o são. Todos estão carentes neste sentido, todos querem ser compreendidos. O sábio é o único que está ali sem parecer um obstáculo ou oponente, pois que de certa maneira ele está fora das possibilidades dos outros. Sua sabedoria os torna reconhecíveis de imediato, uma espécie de submissão voluntária opera de modo silencioso, eles parecem pressupô-la e os outros apenas os seguem. O caminho da sabedoria é solitário. Honras e prêmios não podem atrai-los e riqueza material lhes seria fácil conseguir de modo que a ignoram. Pouca coisa neste mundo desperta sua atenção, pois que estão cientes dos mecanismos pelos quais muitas coisas acontecem. Poucas surpresas os aguardam e eles têm estes raros momentos em alta conta. Eles valorizam a virtude e o caráter e outras coisas que são difíceis de conseguir, pois é a dificuldade que atrai os nobres de espírito. Embora seja um homem de ciência e dado a filosofar o verdadeiro sábio é o conhecedor dos caminhos e o mestre do encontro. Muitos os terão apenas como homens de serenidade, paciência e inteligência e não é mal que assim seja. Mas o sábio pode se permitir alguma vaidade, pois nem toda vaidade vem para o mal. Alguém dotado de sabedoria não pode nem que queira ignorar a raridade de suas capacidades. O sábio em seu caminho através deste mundo estará só, mesmo que acompanhado. A sabedoria é sem dúvida uma das filhas da solidão.

OBS

Só os apaixonados são felizes, e com isso não se diz verdade desconhecida embora muitos discordem. Isso ouvia Jean, enquanto tomava um café. Em meio ao burburinho e música, misturado a sons de tacos de sinuca e passos distinguiu claramente aquela frase, certamente porque viu nela algum teor de inteligência, mesmo que pequena. Ou talvez simplesmente tenha sido a voz feminina que a expressou. Revendo agora pensou até mesmo ter ouvido um suspiro a acompanhar. Virou-se buscando quem poderia ser dona daquela voz foi então que a viu… Chamava-se Camila, como soube mais tarde, menina doce de bons modos e inteligente. Era triste saber-se não sendo o amado que a fizera exclamar aquela frase. Ou será que a tinha lido em algum literato barato para donzelas? Os literatos, pensou, são como urubus que pairam e se aproveitam da miséria humana.

Os Cinco

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Alatar, Radagast, Saruman, Gandalf e Pallandon

Série Wittgenstein

Breve postarei uma série de vídeos onde pretendo fazer uma introdução ao Tractatus de Wittgenstein. Apesar de ser uma introdução não será um mero bate papo sobre o autor, pretendo mostrar conceito por conceito, argumento por argumento como Wittgenstein construiu o sistema filosófico do Tractatus e qual o seu alcance. Breve vídeos aqui.

Segue uma pequena amostra.

 

Quem Eu Admiro

Terminar

J. R. R. Tolkien (1892 – 1973)

Sul Africano – Inglês

O que li dele: O Senhor dos Anéis; O Hobbit e O Silmarillion. O livro Tolkien: A Biografia de Michel Write.

Tolkien não só criou o gênero fantasia como foi o maior expoente do gênero até hoje. Nenhum cenário chega perto da densidade que a Terra-Média tem. Tolkien mostrou o quão longe a ficção pode ir. Digo sem medo que ninguém foi além dele ainda, em termos de criação de mundos fictícios. A trilogia que compoe O Senhor dos Anéis é mais dedicada a história, mas ler os livros e apêndices que completam a história de Arda, suas línguas, seus mitos, suas canções e etc é como estudar antropologia cultural. O pragmático cético e sem paciência vai dizer: Nada disso existe mané! Eu digo: Exatamente por isso é importante. É uma tentativa de construir uma mitologia para as línguas inventadas por ele, professor de filologia em Oxford. É curioso como só em 1954 isso foi feito de modo aprofundado como ele o fez. Inventar uma mitologia, uma cultura exige muito conhecimento e se aprende muito no processo. Como sabe qualquer um que já tentou algo semelhante. Tolkien me dá esperanças, pois mostra o quão longe o espírito humano pode ir. Além disso suas histórias são permeadas por um tom épico, um clima etéreo que gosto muito. Para mim um pensador é alguém que cria, que constrói, nesse sentido Tolkien foi um grande arquiteto. É um homem de grande originalidade e muita versatilidade. Sei muito bem o que muitos vão achar dessa declaração de admiração ao autor de O Senhor dos Anéis. Uma infantilidade ou um resquício do tempo em que jogava RPG, mas não dou a mínima para isso. É com olhos de filósofo que o vejo e a beleza que se encontra em sua obra é algo raro. Seu mito de criação em nada deixa a desejar se comparado ao mito cristão. E sem dúvida é mais belo. O Mundo é a música dos Ainur.

Eric Berne (1910 – 1970)

Canadense

O que li dele: Análise Transacional em Psicoterapia; O Que Você Diz Depois de Dizer Olá e Os Papéis Que Jogamos na Vida de seu discípulo Claude Steiner. Folheio Os Jogos da Vida sem compromisso as vezes.

O que encontrei até hoje mais próximo do que procuro? A análise Transacional de Eric Berne. Acho tudo o que ele escreve de uma ingenuidade tremenda, mas de um potencial enorme. Ele fala de estados do ego – Pai, Adulto, Criança, obviamente derivados do Ego, Superego e Id de Freud, que por sua vez segundo li parece ter sido tirado das três almas de Platão. Ele fala em papéis, jogos, passatempos, scripts… e usa esquemas para mapear as relações humanas, coisas que desde os 16 pelo menos anos eu venho buscando. Não conheço muito de sua vida, mas conheço e gosto bastante de sua teoria. Se Jacob Moreno é o que mais me atrai em termos práticos, Eric Berne é o que me mais atrai teoricamente. Não que eu concorde com ele ou seja um seguidor, mas sim por achar que ele percebeu os problemas que percebo e deu uma resposta a eles. Mapear as relações humanas em termos de transações foi uma grande sacada. Os jogos descritos por ele é o mais genial de sua teoria. É pena que tenha sido psicanalista, a psicanalise perverte tudo. Se não se enveredasse pela teoria dos roteiros, poderia ter construído o jogo que procuro. A diferença fundamental é que ao contrário dele eu não busco uma técnica de psicoterapia e ele reduziu sua teoria a esse âmbito. Os que tentaram expandir sua teoria não foram além dele. Quem lê seus livros não deveria agir mais da mesma maneira, seus conceitos são simples e poderosos. Ele tem muito a ensinar sobre o comportamento humano. É… Quase chegou lá Dr. Berne. Quase.

Jacob Moreno (1889 – 1974)

Romeno – Austríaco – Americano

O que li dele: Psicodrama; O Essencial de Moreno; Fundamentos de la Sociometria e a biografia Jacob Levy Moreno, l889-1974 de René Marineau.

O Moreno é o tipo de gênio que eu nunca serei. Schopenhauer diz: “Um homem moderado nunca será um gênio”. Não é bem verdade, afinal existiu Aristóteles e se ele não é gênio então ninguém mais é. Mas Moreno é o gênio fluido, carismático, de presença poderosa. Eu estou a meio caminho de tudo isso… Judeu nascido na Romênia, cresceu e estudou em Viena na Áustria, aos 36 anos foi morar nos EUA. É mais conhecido como o criador do Psicodrama e da sociometria, além de ser pioneiro em psicoterapia de grupo e ter contribuído (pouco) em um projeto de gravação de áudio em mídia, o que o levou aos EUA. As técnicas do psicodrama me despertaram o interesse tão logo as conheci e mergulhei fundo, lendo tudo que encontrava sobre ele. O encontro com o psicodrama, a análise transacional e a sociologia de Goffmann, eis as situações em que pensei: “Finalmente encontrei.” É uma pena que todos eles tenham feito uma curva e desviado do que busco. Moreno é o mais ousado pesquisador das ciências humanas que já encontrei.É uma pena que o fato de ser um homem prático demais o tenha impedido de elaborar ainda mais suas teorias. Ele assim como Berne e Goffmann fazem uso do conceito de papel, desempenho de papel. Eu sempre soube que a coisa devia começar por aí, mas ele tentou realmente fazer ciência com isso. O que é bom, mas era preocupado demais com psicoterapia. Mal que tem em comum com Berne. Conheço poucas pessoas que desempenharam tão bem o papel Deus-encenado. Aprendi muito com Moreno e suas teorias. Ele também poderia ter chego ao jogo que busco.

Ludwig Wittgenstein (1889 – 1951)

Austríaco – Inglês

O que li dele: Tractatus, Investigações Filosóficas e as seguintes interpretações: Lógica e Forma de Vida – Alexandre Noronha; Iniciação ao Silêncio – Paulo Margutti e A Viena de Wiitgenstein – Janik e Toulmin

Foi Wittgenstein quem eu escolhi para fazer minha monografia na faculdade de filosofia. Meu objetivo foi reconstruir o argumento central do Tractatus, conceito por conceito. Recriar seu sistema filosófico para ver como ele era articulado, como funcionava, o que explicava, qual era seu custo e o que ele acarretava. Esse é um dos últimos grandes sistemas da filosofia contemporânea, eu queria conhecê-lo a fundo para saber o que estava sendo abandonado e porquê. Claro, eu também gosto de lógica. É engraçado e curioso pensar que quando todos estudam tabelas de verdade, tópico de raciocínio lógico (lógica) para concursos estão tendo contato com uma descoberta de Wittgenstein. Eu gosto mais do jovem Wittgenstein, o rapaz apaixonado, intenso e explosivo. A expressão perfeita do tipo de gênio que Schopenhauer e Moreno foram. Ler o Tractatus é dureza, mas há bons comentadores. O melhor deles é Iniciação ao Silêncio de Paulo Margutti. Em seguida vem Lógica e Forma de Vida de Alexandre Noronha. Quando pela primeira vez compreendi Wittgenstein e o desfecho dramático do Tractatus eu percebi o quanto ele é genial. O Tractatus é genial. É mesmo uma pena que eu não possa aceitar sua filosofia.

Hermann Hesse (1877 – 1962)

Alemão – Suíço

O que li dele: O Jogo das Contas de Vidro; Narciso e Goldmund; Lobo da Estepe; Sidarta e Demian.

Eu queria ter conhecido Hesse. Mais do que qualquer outro dos homens listados aqui. Eu cheguei a ele após ler que O Jogo das Contas de Vidro foi uma das inspirações de Bertallanfy para sua Teoria Geral dos Sistemas. O livro conta a vida de José Servo, desde criança quando foi selecionado para estudar nas escolas de elite até se tornar o mestre do jogo de avelórios. O tal jogo não é apenas um pretexto para a história e nem é pura invenção, é algo visivelmente presente na história da filosofia e das religiões. Está em Pitágoras, Platão, Cusa, Hegel… e mesmo nas ciências: Ludwig von Bertalanffy, criador da teoria geral dos sistemas, reconhece em O Jogo das Contas de Vidro um antecessor literário de sua teoria (vide o livro Teoria Geral dos Sistemas). O modo como o autor apresenta o caráter de José Servo, sua mistura de ousadia e timidez, sua servidão e sua liberdade é algo belíssimo. O livro fala sobre a formação espiritual, da busca da plenitude, da busca pela quietude espiritual. Embora seja dito futurista, tem-se a impressão de que a história se passe em um mosteiro do século XIII. O livro inclui também algumas poesias de Jose Servo e três textos de sua autoria. Pra mim, tratando-se de literatura, é o que de melhor se produziu até hoje. Ao me deparar com a resenha de Narciso e Goldmund eu fiquei curioso, era muito semelhante a uma ideia para um romance que tenho. É estranho, tenho a sensação de que Hesse escreve pra mim, para alguém com a mesma estrutura de existência que eu. Eu soube de antemão o que aconteceria com cada personagem dele, tamanha a minha intimidade com a estrutura de sua narrativa. Se pudesse encontrá-lo, eu teria pedido benção e o chamaria de Mestre.

Kurt Lewin (1890 – 1947)

Polonês – Americano

O que li dele: Princípios de Psicologia Topológica; e o estudo Psicologia Estrutural em Kurt Lewin de Luiz Alfredo Garcia-Roza. Devo adquirir em breve Teoria Dinâmica da Personalidade e Problemas de Dinâmica de Grupo.

O homem que mais empreendeu esforços para tornar a psicologia uma ciência dura. Em sua psicologia topológica ele usa topologia, um ramo da geometria, para descrever situações e interações entre o homem e o mundo, criando uma equação para o comportamento que ficou famosa: C = f(S) que é o mesmo que C = f (P + A). O comportamento é uma função do campo psicológico total (S), que é a junção do estado atual da pessoa mais o ambiente. Some isso a um sistema vetorial de forças e temos sua psicologia topológica, a melhor tentativa de matematizar a psicologia já feita. Seu sistema é bem fundamentado, rodeado de experiências… seria bom ver alguém tentar aprofundá-lo. O primeiro passo é conhecer bem matemática, depois psicologia, ter vivência em laboratórios e ter familiaridade com grupos. Está nele também o sonho de poder descrever matematicamente a interação humana, sonho que compartilho e que me fez conhecê-lo e admirá-lo. E Lewin foi além, fazendo análises interessantes sobre filosofia da ciência para poder conhecer melhor o estatuto epistemológico e lugar da psicologia nas ciências de seu tempo. É pioneiro em dinâmicas de grupo também, algo muito em voga hoje. O livro de Garcia-Roza sobre ele é muito bom, constitui uma introdução a sua psicologia mas está longe de ser um mero bate-papo, indo a fundo nos temas. Unindo sua psicologia topológica com a teoria dos jogos de Von Neumann o que teríamos Lewin?

Roberto Bolaño (1953 – 2003)

Chileno

O que li dele: 2666, O Terceiro Reich e Os Detetives Selvagens.

Esse homem é a prova de que se pode conviver com um gênio e nem se dar conta. Afinal quem poderia imaginar que o homem que foi lavador de pratos, monitor de acampamento e gari seria o maior escritor desse início de século? Que seria a voz mais original na literatura da America Latina e que viraria best seller nos EUA? Quem tiver fôlego para enfrentar as mais de 1000 páginas de seu livro 2666 terá a certeza de que se está diante de algo novo. Muito bem construído, muito real, muito próximo… talvez seja o único escritor em que se pode verdadeiramente acreditar hoje. Seus personagens são tão verídicos que é difícil pensar que não existem. O modo sutil como as diversas partes de suas histórias se conectam é simplesmente genial. O livro 2666 é composto de 5 romances: O primeira conta a história de 4 críticos de literatura europeus atrás de um escritor recluso e em suas buscas acabam em Santa Tereza, no México, onde supostamento o autor foi visto, o segundo narra os delírios de um professor de filosofia em Santa Tereza, que recebe os críticos assim que chegam no México, o terceiro a história de um jornalista negro americano que vai ao México fazer a cobertura de uma luta de boxe e acaba por se envolver com os amigos da filha do professor de filosofia, o quarto a história dos brutais assassinatos de mulheres que estão ocorrendo em Santa Tereza e por fim no quinto a história do tal escritor recluso e sua relação com toda essa história. As histórias se cruzam e por fim formam uma grande história, embora não de modo cronológico, e todas elas têm como palco a cidade de Santa Tereza, no México onde centenas de assassinatos brutais de mulheres, jamais desvendados, assolam a região desde os anos 90. Apesar do tamanho monumental, a trama enigmática mantém o leitor em estado de alerta até as últimas palavras, quando só então o autor oferece a solução que permite compreender o conjunto do livro. Bem bolado Bolaño, bem bolado…

Martin Heidegger (1889 – 1976)

Alemão

O que li dele: Seis Estudos Sobre Ser e Tempo e estou pelejando com Ser e Tempo.

O intimidante Heidegger. Nascerá ainda alguém que possa medir forças contra ele? Em Heidegger algo profundo foi descoberto, pelo pouco que o li e compreendo já o percebo e tenho mesmo medo de me perder em seus conceitos. Uma maneira nova de falar sobre o humano foi descoberta, e é tão profunda que ameaça tornar superficial todas as outras. É preciso dominar Heidegger para que se possa ir adiante, isto é certo. Deixo aqui o mito da Cura ou cuidado que ele utiliza numa passagem central de Ser e Tempo: “Certa vez, atravessando um rio, Cuidado viu um pedaço de terra argilosa: cogitando, tomou um pedaço e começou a lhe dar forma. Enquanto refletia sobre o que criara, interveio Júpiter [Zeus]. Cuidado pediu-lhe que desse espírito à forma da argila, o que ele fez de bom grado. Quando, porém, Cuidado quis dar um nome à criatura que havia moldado, Júpiter o proibiu. Exigiu que fosse dado o seu nome. Enquanto Cuidado e Júpiter disputavam sobre o nome, surgiu também a Terra, querendo dar o seu nome, uma vez que havia fornecido um pedaço de seu corpo. Os disputantes tomaram Saturno [Cronos/Tempo] como árbitro. Este tomou a seguinte decisão que pareceu eqüitativa: “Tu, Júpiter, por teres dado o espírito, deves receber na morte o espírito, e tu, Terra, por teres dado o corpo, deves receber o corpo. Como, porém, foi Cuidado quem primeiro o formou, ficará sob seus cuidados enquanto ele viver. Como, no entanto, sobre o nome há disputa, ele deve se chamar Homem, pois foi feito de “humus” (terra fértil).”

 

Friedrich Nietzsche (1844 – 1900)

Alemão

O que li dele: Assim Falava Zaratustra

Erich Fromm (1900 – 1980)

Alemão – Americano

O que li dele: A Arte de Amar. Li, reli e ainda releio.

Erving Goffman (1922 – 1982)

Canadense

O que li dele: A Representação do Eu na Vida Cotidiana; Comportamentos em Lugares Públicos e Ritual de Interação

 

Soren Kierkegaard (1813 – 1855)

Dinamarquês

O que li dele: Diário de um Sedutor

Machado de Assis (1839 – 1908)

Brasileiro

O que li dele: Memórias Póstumas de Brás Cubas; Dom Casmurro; Memorial de Aires e os contos O Alienista e O Medalhão.

Fiodor Dostoiévski (1821 – 1881)

Russo

O que li dele: Crime e Castigo; Os Irmãos Karamazov; Niétotchka Niezvânova e Um Jogador.

Joseph Campbell (1904 – 1987)

Americano

O que li dele: O Poder do Mito

Dica de Livro – O Grande Projeto

06/01/2012

A dica de hoje é o livro O Grande Projeto de Stephen Hawking.

Em mais um livro voltado para o grande público o gênio da ciência mostra os avanços recentes da física em direção a uma teoria de tudo.

Ele mesmo tem contribuições buscando unificar as duas principais teorias da física hoje: a relatividade de Einstein e a mecânica quântica, mas em seu livro aborda a famosa teoria M ou teoria das cordas e defende que ela é a única candidata viável a uma teoria de tudo.

Hawkings que fez 70 anos ontem e luta há quase 50 anos com uma doença neurodegenerativa que o mantém paralisado em uma cadeira de rodas e o obriga a se comunicar por meio de um computador.

O livro traz também algumas das declarações polêmicas que Hawking disparou em entrevistas recentemente como a rejeição de que algo como um Deus seja necessário para por o universo em movimento.

Recheado de bom humor e rico em ilustrações o livro ainda aborda com profundidade as questões definitivas da vida humana.

Dica de Livro – 2666

05/01/2012

A dica de hoje é o livro 2666 do chileno Roberto Bolaño.

O livro é composto de 5 romances: O primeira conta a história de 4 críticos de literatura europeus atrás de um escritor recluso e que sua busca acabam em Santa Tereza, no México; o segundo narra os delírios de um professor de filosofia em Santa Tereza, que recebe os críticos assim que chegam no México; o terceiro a história de um jornalista negro americano que vai ao México fazer a cobertura de uma luta de boxe e acaba por se envolver com os amigos da filha do professor de filosofia; o quarto a história dos brutais assassinatos de mulheres que estão ocorrendo em Santa Tereza e por fim no quinto a história do tal escritor recluso e sua relação com toda essa história.

As histórias se cruzam e por fim formam uma grande história, embora não cronológica, e todas elas têm como palco a cidade de Santa Tereza, no México. Onde centenas de assassinatos brutais de mulheres, jamais desvendados, assolam a região desde os anos 90.

Apesar do tamanho monumental – tem quase mil páginas – a trama enigmática mantém o leitor em estado de alerta até as últimas palavras, quando só então o autor oferece a solução que permite compreender o conjunto do livro.

O autor teve que finalizar o livro às pressas porque sabia ter pouco tempo e morreu sem vê-lo publicado em 2003. Já era conhecido na época, mas após 2666 se tornou mundialmente famoso e chegou a ser comparado com gigantes da literatura como James Joyce, Robert Musil e Borges.

Dica de Livro – O Vendedor de Passados

 04/01/2012
O vendedor de passados conta a história de um albino que mora em Luanda, Angola, e faz árvores genealógicas falsas em troca de dinheiro. Quem poderia querer uma árvore genealógica falsa? Prósperos empresários, políticos e generais da emergente burguesia angolana que têm futuro assegurado, mas falta-lhes um bom passado. Após anos de luta pela independência as famílias angolanas foram destroçadas. Muitos estão mortos ou desaparecidos e as histórias que se conhecem. Bem… Estas é melhor que sejam esquecidas.

Assim o albino constrói genealogias de luxo. Conseguindo até mesmo retratos dos ancestrais e lembranças felizes, cenas alegres da família sendo muito requisitado. Sua vida anda muito bem, até receber a visita de um estrangeiro à procura de uma identidade angolana, este numa sequência de eventos fará o verdadeiro passado de Angola emergir e mudará o futuro do personagem. Poderia apenas ser um livro sobre Angola, não fosse o curioso fato de a história do albino ser contada por uma largatixa que mora em sua casa…

O autor José Eduardo Agualusa se define assim: “Quem eu sou não ocupa muitas palavras: angolano em viagem, quase sem raça. Gosto do mar, de um céu em fogo ao fim da tarde. Nasci nas terras altas. Quero morrer em Benguela, como alternativa pode ser Olinda, no Nordeste do Brasil.” Perguntado se se diverte escrevendo, Agualusa explica: “Escrever me diverte, e escrevo também, porque quero saber como termina o poema, o conto ou o romance. E ainda porque a escrita transforma o mundo. Ninguém acredita nisto e, no entanto é verdade.”.

Elevador e Interação Social

Usar um elevador – eis uma situação paradigmática para o estudo da interação humana. Existem três regras do trato social que se tornam evidentes para nós quando estamos em um elevador com um ou mais estranhos:

1) Espaço vital – exigimos e concedemos ao outro um certo espaço ao redor do seu próprio corpo para que possa se movimentar e tomar com o seu. Apenas pessoas íntimas podem adentrar esse espaço. Qualquer aproximação excessiva de um estranho é alvo de olhares reprovadores e até mesmo de indignação. No elevador somos obrigados a compartilhá-lo com estranhos. O que gera algum constrangimento nos mais tímidos. Acontece também quando alguém vem falar com a gente e chega muito perto, quase juntam a cara na gente, sentimos um desconforto e que esta pessoa quebrou uma regra, e isso torna evidente que pressupomos que ele não deveria chegar tão perto.

2) Estruturação do tempo – o modo como estruturamos nosso tempo, isso é, o que fazemos com o nosso tempo também é uma regra que se mostra presente no elevador. No elevador só nos cabe esperar, não há muito que fazer e em geral soos obrigados a enfrentar um período de tempo desestruturado. Ficar de frente com outra pessoa com o tempo desestruturado é uma situação constrangedora para muitos. Por isso é comum pegar o celular, verificar as horas, verificar os bolsos ou a bolsa, se arrumar no espelho e etc, tudo isso para evitar o tempo desestruturado, a espera sem fazer nada. Isso é tão constrangedor que inventamos uma série de jogos, isso é, um conjunto de lances com estrutura mais ou menos definida, para nos entreter em situações assim: perguntar sobre o tempo, sobre a família, sobre futebol, sobre os estudos, trabalho e etc.

3) Desatenção civil – toda pessoa tem direito a poder agir e circular sem ser observada diretamente. No máximo um olhar de mapeamento e desviar os olhos em seguida. A prova de que essa é uma regra do trato social é que quando um estranho nos pega olhando para ela, sentimos que não devíamos estar olhando, desviamos o olhar, disfarçamos. No elevador torna-se difícil não olhar para as pessoas e o que é mais constrangedor do que dois rostos estranhos que se olham num tempo/contexto não estruturado? Por que não iniciar um jogo e dar estrutura a este tempo? O jogo tem uma estrutura definida, sabemos o que fazer, como nos comportar, o que facilita as coisas, isso é, estruturamos o tempo com ele.

Por jogo entendo uma interação já cristalizada, onde cada movimento já é conhecido de antemão, assim como o desfecho e mesmo assim insistimos em realizá-los, uma vez que ele estrutura nosso tempo e evita o desconforto. Tal como o seguinte jogo:

Pessoa 1: Oi.
Pessoa 2: Oi. Tudo bem?
Pessoa 1: Tudo sim. E você?
Pessoa 2: Tudo jóia. Está sumida.
Pessoa 1: Pois é, trabalhando muito. Na correria. E você, que tem feito?
Pessoa 2: Nada demais. Estudando, trabalhando.
Pessoa 1: Que bom te ver. Estou atrasada agora. Tenho que ir.
Pessoa 2: Eu também. Vê se aparece.
Pessoa 1: Apareço sim. Beijo.
Pessoa 2: Beijo. Tchau
Pessoa 1: Tchau.

Sim, estas regrinhas e inúmeras outras estão operando quando entramos no elevador. Certamente a vida não é muito semelhante a um jogo, mas a interação humana sim.

O Tractatus de Wittgenstein – Parte 2

Dando sequência aos posts sobre o Tractatus de Wittgenstein, segue a segunda parte. Reitero que caso este texto seja usado em trabalhos de faculdade ou monografias (TCC) que seja citada a fonte:

OLIVEIRA, Rodrigo Silva de – A Lógica da Linguagem, Uma Reconstrução Parcial do Tractatus de Wittgenstein. Monografia defendida na PUCRS. Porto Alegre, 2010.

1.5    Os nomes e o significado

O nome é o limite da análise, é um signo primitivo.
Proposições simples pressupõem que o nome tenha significado.
Assim, elucidar o significado de um nome já pressupõe que ele tenha significado.
Uma proposição na qual um nome não possua significado não possui sentido,
é um contrasenso.

Sabemos que a análise da proposição complexa nos levará às proposições simples que a compõem e que a análise das proposições simples nos levará aos nomes que a compõem, então podemos perguntar: o que constitui o nome? Os nomes são entidades primitivas, que não podem mais ser dissecados. É o limite da análise. Dissemos que o nome designa um objeto de maneira inequívoca no interior de uma proposição. Como, porém, um nome se refere a um objeto, ou seja, como ele possui significado? A proposição simples é a menor unidade lingüística dotada de sentido e os nomes não possuem sentido, só podemos falar do significado dos nomes através de proposições, ao tentar elucidar seu significado usaremos proposições, proposições são constituídas por nomes, elas pressupõem que eles denotem um objeto de forma unívoca, proposições só são compreendidas quando já sabemos o significado dos nomes. Assim, vemos que ao tentar elucidar o significado dos nomes já estamos pressupondo que eles tenham um significado. Dada a estrutura da linguagem, não podemos dissecar os nomes, pois ao tentar fazê-lo já estamos pressupondo que estes designem objetos de maneira unívoca.[1]

Pode ocorrer em uma proposição de um dos nomes envolvidos não possuir significado, isso é, não designar objeto algum, quando isso ocorre a proposição não terá sentido, será um contra-senso. Uma imagem pode nos ajudar a representar melhor essa idéia: pensemos o nome como um ponto, e a proposição como uma flecha. A flecha é constituída de pontos, pontos não tem sentido, a flecha tem.[2]

Quando um dos nomes que constituem uma proposição não possui significado, isso é, não designa um objeto, a flecha é interrompida e a proposição resultante não possui sentido, é um contra-senso.

Podemos ver claramente que para que uma proposição possua sentido, os nomes envolvidos nela devem significar um objeto, quando falha esse pressuposto a proposição falha em representar uma situação possível, ou seja, não tem sentido. Aqui temos um pressuposto da linguagem. Este é um pressuposto transcendental do sentido, isso é, é uma condição de possibilidade que deve ser satisfeita para que a proposição tenha sentido, para que seja capaz de representar uma situação.

1.6     Situação e Fato

Uma situação é um fato complexo.
Fatos complexos se decompõem em fatos simples
O fato simples é um conjunto de objetos articulados em uma determinada forma.
Fatos são estados de coisas possíveis e podem ser o caso, ou não.

Dissemos que uma proposição representa uma situação possível, mas o que é uma situação? É um objeto? Ou um conjunto de objetos? Uma situação é um fato. Exemplos de fatos são:

A circunstância de eu confiar em Pedro.

A circunstância de haver 50 livros em uma estante.

A circunstância de João morar em uma determinada cidade.

Fatos assim como proposições podem ser simples e complexos. Os exemplos dados acima são fatos simples. Segue alguns exemplos de fatos complexos:

A circunstância de o atual imperador do Brasil ser mulherengo e corrupto.

A circunstância de Pedro saber falar português e inglês.

A circunstância de Pedro morar em uma determinada cidade e gostar dessa cidade.

Fatos complexos são constituídos de fatos simples e a análise de um fato complexo sempre levará aos fatos simples que o compõem. Exemplo:

A circunstância de Platão dar aulas de filosofia e de matemática na Academia e gostar de dar aulas dessas duas matérias.

Podemos decompor este fato complexo nos seguintes fatos simples:

Lápide de Wittgenstein em Cambridge

(1) A circunstância de Platão dar aulas de filosofia na Academia.

(2) A circunstância de Platão dar aulas de matemática na Academia.

(3) A circunstância de Platão gostar de dar aulas de filosofia.

(4) A circunstância de Platão gostar de dar aulas de matemática.

O fato complexo se decompõe em fatos simples e estes, por sua vez, são constituídos por um conjunto de objetos articulados em uma determinada forma. Objetos sem uma articulação não constituem um fato. Assim, quando analisamos um fato iremos de fatos complexos para fatos simples, e de fatos simples para os objetos que o constituem.

Um fato é uma situação possível, ele pode ser o caso ou não. A circunstância de São Paulo ser a capital do Brasil é um fato, uma configuração de objetos possível, mas este é um fato negativo, isso é, que não é o caso. A circunstância de Brasília ser a capital do Brasil é um fato positivo.

1.7 Proposições e fatos

A proposição é um fato.
A proposição simples representa um fato simples.
Comparando uma proposição com a realidade, podemos saber se ela é
verdadeira ou falsa.

Uma proposição é um fato.[3] Nela temos objetos articulados em uma determinada forma. Trata-se de um fato que usamos para sinalizar outro fato. A proposição simples é um sinal de um fato simples. Ela descreve um fato simples e proposições complexas descrevem um fato complexo. Chamamos um fato complexo de situação. Se o fato descrito por uma proposição for o caso, ela será verdadeira; se não for o caso, ela será falsa. Assim, a proposição nos mostra como estão as coisas no mundo se for verdadeira. Dissemos antes que o sentido de uma proposição é a situação possível que ela representa, podemos dizer que seu sentido é o estado de coisas possível que ela representa. Para saber se uma proposição é verdadeira ou não devemos compará-la com a realidade. Nenhuma proposição legítima é verdadeira a priori, isso é, independente dos fatos.[4]

1.8 O sentido da proposição complexa

A proposição complexa é uma função de verdade de proposições simples.
O sentido da proposição complexa é dado pela articulação das proposições
simples que a compõem.
Uma proposição complexa é uma função de verdade de proposições simples.
As proposições simples são funções de verdade de si mesmas.
Todo o trabalho de representação do mundo é feito pelas proposições simples,
as proposições complexas
não representam mais do que as proposições simples que as compõem.

Dissemos que uma proposição simples possui sentido porque ela representa um fato, que seu sentido é o fato possível que ela representa. Como ela consegue fazer isso é algo que mostraremos mais tarde. Como a proposição complexa possui sentido? Qual a relação entre o sentido da proposição simples que a constituem e o seu sentido? Como articulamos proposições simples para formar proposições complexas?

Casa que Wittgenstein projetou e ajudou a construir para sua irmã.

Articulamos proposições simples em proposições complexas através de uma operação lógica chamada operação de verdade ou uma função de verdade, essa operação é o que deve ocorrer com uma determinada proposição para que através dela se construa outra. Essa operação só pode ser aplicada pressupondo as proposições simples, elas não dissecam proposições simples. Para que seja efetiva ela pressupõe as proposições simples e que estas tenham um sentido definido.

Vejamos os seguintes exemplos de proposições simples:

(p) Platão dava aulas de filosofia na Academia.

(q) Platão dava aulas de matemática na Academia.

Como são proposições autênticas descrevem fatos possíveis e podem ser verdadeiras ou falsas. Iremos pressupô-las como dadas e aplicar sobre elas a operação de verdade ou a função de verdade. Iremos representá-las por p e q.

A primeira função de verdade que vamos apresentar é a negação, representada por “~”. Se aplicarmos essa operação sobre p teremos a seguinte proposição: “não é o caso de que Platão dava aulas de filosofia na Academia.” O que a operação de negação faz? Sabemos que p é uma proposição simples autêntica, que tem um sentido definido. A operação de negação altera o sentido de p? O que a operação de negação faz é o seguinte: ela torna ~ p (lê-se não p) falsa quando p for verdadeira e p falsa quando ~ p for verdadeira. O sentido de ~ p depende do sentido de p. O que a operação de negação faz é trabalhar sobre o sentido de p. Pelo exemplo podemos ver que ~ p é obtida de maneira lógica de p, uma vez que a operação ~ p expressa o resultado de uma operação que tem a proposição simples p por base.

Como p admite apenas dois valores de verdade possíveis, V ou F, podemos representar a operação de negação da seguinte forma:

P ~ p
V F
F V

O que a tabela, que chamaremos de tabela de verdade, nos mostra é que quando a proposição simples p é verdadeira (coluna 1, linha 1), ~ p é falsa (coluna 2, linha 1) e que quando p é falsa (coluna 1, linha 2), ~ p é verdadeira (coluna 2, linha 2).

O que devemos enfatizar é que a operação não caracteriza o sentido da proposição, ~ p é obtida de maneira lógica de p. O que ~ p expressa é o resultado de uma operação que tem p como base. Dizer que a operação não caracteriza o sentido da proposição é dizer que as proposições complexas não representam nada além das proposições simples que as constituem. Todo o trabalho de representação do mundo é feito pelas proposições simples. Por isso as proposições simples entram no que chamamos de o pressuposto transcendental do sentido, porque o sentido das proposições complexas é dado pela articulação do sentido das proposições simples. O que queremos dizer com articulação do sentido das proposições simples? Uma proposição complexa é uma função de verdade de proposições simples.[5] Chegamos às proposições complexas aplicando as diversas operações de verdade às proposições simples. Uma proposição simples é uma função de verdade de si mesma, pois sua verdade ou falsidade é determinada pelo estado de coisas que ela representa. A representação do mundo é feita pelas proposições simples. É nesse sentido que dizemos que a aplicação de uma “operação de verdade não caracteriza o sentido da proposição” (WITTGENSTEIN, 2008: pag. 215).[6]

Vejamos a operação de conjunção agora. Uma conjunção é quando fazemos uma afirmação conjunta, quando afirmamos que duas coisas se dão juntas. Por exemplo, quando dizemos: “Platão dava aulas de filosofia e matemática na Academia”. Estamos afirmando que “Platão dava aulas de filosofia na Academia” e que “Platão dava aulas de matemática na Academia”, uma conjunção. Iremos representar uma conjunção de duas proposições quaisquer por p & q (lê-se p e q). Uma conjunção afirma a verdade de p e a verdade de q, assim uma conjunção só é verdadeira quando tanto p como q são verdadeiras. Em todos os outros casos a conjunção será falsa. Como p e q são proposições autênticas, isso é, representam fatos possíveis, elas podem ser verdadeiras ou falsas, admitem dois valores de verdade, V ou F. Podemos representar mediante uma tabela todas as combinações possíveis de valores de verdade de uma proposição qualquer mediante uma tabela de verdade. Digamos que tenhamos duas proposições, p e q por exemplo. Todas as combinações possíveis de valores de verdade de p e q são dadas pela seguinte tabela:

P        Q
V       V
V       F
F       V
F        F

Temos quatro alternativas: 1) p e q são verdadeiras, 2) p é verdadeira e q é falsa, 3) p é falsa e q é verdadeira e 4) p é

Manuscrito de Wittgenstein de 1914

falsa e q é falsa. A regra geral pela qual construímos uma tabela de verdade é a seguinte: dada uma proposição complexa qualquer, o número de combinações possíveis de valores de verdade da proposição complexa é igual a 2 elevado ao número de proposições simples que compõem a proposição complexa (vamos designar por n o número de proposições simples que compõem a proposição complexa). Se uma proposição complexa for constituída por apenas duas proposições simples, por exemplo, então teremos apenas quatro combinações de valores de verdade possíveis, ou de estados possíveis, ou ainda, de configurações possíveis de objetos, pois 2² = 4. Se uma proposição complexa qualquer é constituída por três proposições simples, temos uma tabela com 2³ possíveis combinações de valores de verdade, isso é, 8 combinações possíveis.

Como sabemos todas as combinações possíveis de valores de verdade de p e q e sabemos quando a conjunção é verdadeira, podemos obter a seguinte tabela:

P        Q P    &    Q
V       V V    V    V
V       F V    F     F
F       V F     F    V
F        F F     F     F

A tabela nos mostra que, aplicada a p e q, a operação de conjunção só é verdadeira na primeira linha, quando p e q são ambas verdadeiras. O que a operação de conjunção expressa é a verdade de p & q quando p é verdadeira e q é verdadeira. Mas como dissemos antes, isso não caracteriza o sentido de p e de q. A conjunção p & q é o resultado de uma operação que tem “p” e “q” por base. O sentido de p & q depende do sentido de “p” e de “q”. Até mesmo a verdade ou falsidade de p & q depende da verdade de “p” e “q”. Dado isso podemos afirmar que a aplicação de uma operação lógica não altera o sentido da proposição. A operação em si nada enuncia, apenas o resultado da operação expressa algo, mas o resultado depende das proposições que são tomadas como base. Com isso queremos dizer: nenhuma representação é acrescentada às proposições simples para que sejam geradas as proposições complexas. Se a proposição “p” é uma função de verdade de proposições simples, “p” não representa nada que não seja já representado nas proposições simples das quais “p” é uma função de verdade.

Dado o que definimos acima, podemos dar a tabela das outras operações de verdade. A tabela correspondente a operação de disjunção (p ou q), que afirma que dado duas proposições quaisquer p e q, ou p é verdadeira, ou q é verdadeira ou ambas são verdadeira. Assim p v q (lê-se p ou q), que é como iremos representar a operação de disjunção é verdadeira se p é V, ou se q é V, ou se p é V e q é V. A disjunção só é falsa quando p é falsa e q é falsa. Assim temos a seguinte tabela:

P        Q P     v    Q
V       V V    V    V
V       F V    V    F
F       V F     V    V
F        F F     F     F

A operação condicional (se p então q – representada por p → q) tem a seguinte tabela:

P        Q P     →   Q
V       V V    V    V
V       F V    F     F
F       V F     V    V
F        F F     V    F

A operação bicondicional (p se e somente se q – representada por p ↔ q) tem a seguinte tabela:

P        Q P    ↔    Q
V       V V    V    V
V       F V    F     F
F       V F     F    V
F        F F     V    F

As funções de conjunção, condicional e bicondicional podem ser definidas através da operação de negação e da operação de conjunção.


[1] 3.263 – “Os significados dos signos primitivos podem ser explicados por meio de elucidações. Elucidações são proposições que contêm os signos primitivos. Portanto, elas so podem ser compreendidas quando os significados destes signos já são conhecidos.”

[2] A analogia com setas e pontos é sugerida pelo próprio Tractatus no aforismo 3.144 – “Situações podem ser descritas, não nomeadas. (Nomes são como pontos, proposições são como flechas, elas têm sentido)”. Nossa imagem é extraída do livro Iniciação ao Silêncio (MARGUTTI 1998: pag. 166).

[3] 3.14 – “O sinal proposicional é um fato”

[4] 2.223 – “Para reconhecer se a figuração é verdadeira ou falsa, devemos compará-la com a realidade.”

2.225 – “Uma figuração verdadeira a priori não existe.”

[5] 5 – “A proposição é uma função de verdade das proposições elementares. (A proposição elementar é uma função de verdade de si mesma).”

[6] 5.25 – “A ocorrência da operação não caracteriza o sentido da proposição. Pois a operação não enuncia nada, apenas seu resultado o faz, e este depende das bases da operação.”

O que é Filosofia? – Qual a origem do filosofar?

Segue um vídeo onde falo sobre a origem do filosofar, sobre o sentimento que está em sua origem. Se se sentirem interessados após ver o vídeo podem ler o artigo Sobre a Origem do Filosofar postado aqui no blog.

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