Parmênides e o Ser

Parmênides e o ser

Rodrigo S. de Oliveira

Parmênides afirmava que tudo era um, que não havia nenhuma transformação verdadeira no mundo, nenhuma mudança, logo não havia movimnto e nem liberdade. Para ele a verdadeira realidade era eterna, una e imutável.

Isso nos soa estranho, absurdo até. Pois vemos inúmeras mudanças na realidade e uma enorme multiplicidade. Como Parmênides poderia afirmar que ela era uma e imutável?

Se Parmênides era um grande pensador, por que afirmou tais coisas?

Para entendermos o que ele queria dizer com isso precisamos conhecer o contexto em que viveu e o problema que quis resolver, somente assim vamos entender suas teses.

Precisamos ter algumas coisas em mente:

Primeiro: os gregos tinham uma visão de mundo um pouco diferente da nossa. Para eles o mundo sempre existiu. Não foi criado. Muito menos criado do nada como crêem os cristãos. Do nada, nada vem. Aqui Parmênides segue a tradição grega, para ele o mundo sempre existiu.

Segundo: Parmênides viveu na época em que a filosofia estava começando a se desenvolver. O otimismo era grande e a crença na razão quase absurda. A matemática tinha recebido contribuições importantes de Tales e Pitágoras e a matemática fascinava, colocava-se um problema e ele tinha uma única solução correta, válida universalmente. O pensamento e a razão fascinavam os filósofos gregos porque eles evocavam ordem. O famoso lógos dos gregos.

Terceiro: a mente vê o mundo conceitualmente, ela organiza a realidade em conceitos. Os sentidos vêem o mundo como uma multiplicidade. Os sentidos me mostram vários tipos de homens, uns brancos outros negros, uns altos outros baixos e etc. Os sentidos veem o mundo como uma multiplicidade, uma desordem, um caos, já o pensamento os unifica sob um conceito, trazendo ordem. Assim vem a ideia de que a razão é superior aos sentidos. Essa tese é sustentada por quase todos os filósofos da natureza e até mesmo por Platão.

Quarto: quando falam em razão ou lógos, eles entendem não apenas uma faculdade humana, uma característica do ser humano. Por logos eles entendem também uma lei que rege a realidade, uma lei cósmica por assim dizer, a lei que estrutura o real. A razão não é apenas uma faculdade humana, ela é o princípio objetivo que organiza a realidade.

As leis que regem o pensamento são as mesmas que regem a realidade. Uma coisa impossível para o pensamento é impossível na realidade também. Os princípios que valem para o pensamento valem para a realidade também. Não podemos imaginar uma coisa estando e não estando no mesmo lugar ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto, assim como é impossível que isso aconteça na realidade. Isso leva a crer que as leis que regem os dois são as mesmas. Por isso Parmênides afirmava que “ser e pensar são um só”. Ora se a realidade e o pensamento são regidos pelas mesmas leis, se você quer conhecer a realidade, não confie nos sentidos, mas sim no pensamento. A razão é superior aos sentidos. Parmênides via que no mundo havia mudança, movimento, multiplicidade, mas a razão lhe dizia que as coisas não eram assim e ele escolheu acreditar na razão. Denunciando os sentidos. Como ser e pensar são o mesmo, conhecemos a verdadeira realidade pelo pensamento, não pelos sentidos. Enquanto filósofo, encarava a sua tarefa como o desmascarar de todas as formas de ilusões sensoriais.

Quinto: o conceito de ser é um conceito especial. Todo conceito tem uma área de aplicação: o conceito de mesa se aplica a mesas, o conceito de cadeira se aplica a cadeiras, mas não a mesas e nem outra coisa mais, o conceito de homens se aplica aos homens, mas não a computadores… todo conceito tem uma aplicação restrita, mas o conceito de ser se aplica a tudo. Uma mesa é ser, o homem é ser, a cadeira é ser e até mesmos as entidades mentais como números, e seres imaginários como dragões são seres. O conceito de ser é universal, se aplica a tudo.

Agora podemos entender o que Parmênides queria nos dizer. Os filósofos da natureza procuravam um elemento que fosse a origem de todas as coisas. Um elemento a partir do qual tudo havia se transformado. Mas como poderia uma substância transformar-se de repente e tornar-se uma coisa completamente diferente? Podemos designar este problema pelo problema do devir e é este problema que Parmênides quer resolver. Platão e Aristóteles vão tentar resolver esse problema também.

As teses de Parmênides podem ser resumidas nessas duas premissas:

1) O que é, é, e não pode não ser; o que não é, não é, e não pode ser.

2) O que é, pode ser pensado ou conhecido, expresso ou realmente nomeado; o que não é, não o pode.

Daí extraímos suas conclusões cobre o um:

Se o ser é, então ele é uno, porque se não fosse haveria outro ser, mas além do ser só há o não ser e o não ser não é e não pode ser conhecido.

O ser também é imutável, porque se não fosse ele poderia mudar e a única coisa para a qual ele poderia mudar seria o não ser, mas o não ser não é e não pode ser conhecido.

O ser também é eterno porque o tempo também é um tipo de mudança e já vimos que ele é imutável.

A realidade dos sentidos é múltipla, mutável e temporal, mas somente o pensamento nos revela a verdadeira realidade que é una, eterna e imutável. Temos aqui se não o primeiro, um dos primeiros sistemas metafísicos (uma teoria sobre a estrutura da realidade, sobre o todo, sobre o ser.)

Se ela soa estranha ou absurda para alguns me permita lembrar que Einstein, tido como um dos maiores gênios de todos os tempos, defende uma idéia de universo semelhante à de Parmênides. Popper, filósofo da ciência britânico, o chamou de Parmênides certa vez durante uma discussão e Einstein disse que o universo que concebia era semelhante ao de Parmênides mesmo.

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3 Responses to Parmênides e o Ser

  1. Hailton disse:

    Percebi que precisava estudar parmênides para entender a metafísica de aristóteles.
    Agora tudo está claro
    muito obrigado, Rodrigo
    Ajudou bastante
    Um grande abraço para você

  2. Juan disse:

    é dera disso ou desse texto que precisava,pude compreender um pouco… :) Obg

  3. Emanuele disse:

    Muito bom, serviu de grande ajuda para meu trabalho. A princípio me pareceu um pouco complicado, mas ao decorrer desse artigo, um argumento vai explicando o outro e tudo fica mais fácil.

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